Braçadas de rara ousadia
A CRONOLOGIA DA ÁGUA tem uma gramática muito especial para exprimir os ecos de memória, a onipresença da dor na vida de Lidia Yuknavitch e a vertigem a que ela submetia seu corpo pelo sexo, as drogas e a autossabotagem.
A CRONOLOGIA DA ÁGUA tem uma gramática muito especial para exprimir os ecos de memória, a onipresença da dor na vida de Lidia Yuknavitch e a vertigem a que ela submetia seu corpo pelo sexo, as drogas e a autossabotagem.
O OLHAR MISTERIOSO DO FLAMINGO oscila entre a brutalidade e a ternura com um retrato carinhoso e divertido de uma comunidade queer e o amadurecimento de uma menina nesse meio.
Como thriller de fuga, 13 DIAS, 13 NOITES é lancinante e persuasivo. É o drama de uma cidade, Cabul, em situação extrema nas mãos sanguinárias dos talibãs.
Tudo é suposto em A MENSAGEIRA. Tudo é nebuloso, interrompido a meio caminho, dissimulado por uma montagem dispersiva, que mais “desconversa” do que “costura”.
Em A GRAÇA, Toni Servillo é a encarnação perfeita de um homem austero e frágil, impávido até a medula, dividido entre suas convicções e os apelos de uma sociedade que quer se mover no tempo.
PARQUE LEZAMA é um simpático exercício teatral em torno da amizade, do valor da fabulação e dos sonhos que vamos deixando para trás. Pena que o filme dependa demais dos diálogos e dos atores, todos de qualidade, mas insuficientes para superar a marca de teleteatro.
Nada contra os bons sentimentos, desde que seja com bons argumentos. A PEQUENA AMÉLIE, indicado ao Oscar de longa de animação, não cumpre o que promete com verve irônica nas primeiras cenas.
Em A VIDA SECRETA DE MEUS TRÊS HOMENS, Letícia Simões procura avançar um tanto mais na maneira de evocar seus familiares, agora através do cangaço, da ditadura e da homofobia.
Em MOTHER’S BABY, o que pode parecer, a princípio, uma simples depressão pós-parto não cessa de evoluir para algo cada vez mais inquietante.
KOKUHO – O PREÇO DA PERFEIÇÃO é longo e tem subplots familiares que não se esclarecem bem. Ainda assim, somos levados pela excelência da realização e a curiosidade a respeito dos ritos e do esquema extremamente codificado do kabuki.
Minhas notas sobre os filmes HANAMI, A MISS e A HISTÓRIA DO SOM.
O estilo “documental” e a boa atuação do elenco de O CASO DOS ESTRANGEIROS garantem uma base de qualidade inegável, mas é de se perguntar a que serve tamanha exploração da agonia dos refugiados.
Mad Max foi à rave e acabou num campo minado. Esta seria minha sinopse de SIRĀT, filme que absorve a auto-alienação dos personagens como dramaturgia.
O díptico MAL VIVER e VIVER MAL forma um testamento magistral do cineasta português João Canijo, um primor de construção dramatúrgica e direção de elenco. No streaming.
Com um desempenho notável de Carolina Dieckmmann, a comédia dramática (DES)CONTROLE explora a sobrecarga de afazeres e informações da vida contemporânea num Rio de Janeiro com cara de Globofilmes.
Notas sobre o drama de catástrofe O ÔNIBUS PERDIDO e o documentário político-musical UNITE FOR BISSAU.
YES ensaia uma crítica às canções patrióticas, ao poder econômico que sustenta o belicismo israelense e à convicção de que Israel é uma boa terra, de boa gente.
Sem carregar nas tintas do filme de causa, mas usando um estilo similar ao dos filmes políticos de Ken Loach, Dolores Fonzi reconta dignamente um episódio crucial da luta feminista na Argentina em BELÉN – UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA.
Na avalanche de filmes sobre luto que tem aparecido ultimamente, o islandês QUANDO A LUZ ARREBENTA é uma variante relativamente original. Trata-se de uma dor que não pode ser externada.
Em DOIS PROCURADORES, o ucraniano Sergei Loznitsa volta-se para o passado stalinista com um olho no presente: a tirania de então seria, em essência, a mesma da Rússia de Putin.
A parcimônia com que Huo Meng pontua as grandes transformações da China na época faz de LIVING THE LAND uma obra mais contemplativa do que investigativa.
ZAFARI ostenta um certo parentesco com “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, tanto na ambientação do condomínio como nas paranoias de uma classe média que se sente ameaçada.
MILONGA tem algumas qualidades frequentes em dramas humanos uruguaios: flui de maneira simples e suave, com algum humor, mesmo quando os fatos e sentimentos assumem proporções graves.
A principal força e razão de ser de A VOZ DE HIND RAJAB está já no seu título. É o uso da voz real da menina de seis anos que pereceu sob tiros de soldados israelenses num posto de gasolina de Gaza.
A intenção de A ÚNICA SAÍDA é clara: satirizar o espírito de competição no mundo corporativo, as mensagens motivacionais, etc. Mas tudo é feito com tamanhas obviedade e grosseria que só se justifica por um conceito de comicidade muito particular coreano.
É muito bom saber que Hollywood ainda pode realizar uma obra tão divertida, visceral e humana como MARTY SUPREME.
HOMEBOUND, representante da Índia no Oscar, é um melodrama realista sobre as aspirações mais básicas de dois amigos de infância. Na Netflix.
Embora seja bem intencionado em relação à mensagem de Manuel Puig, o novo O BEIJO DA MULHER ARANHA estaciona na cafonice ao combinar uma estereotipia latina com clichês da Broadway.
HAMNET quer dar conta de uma alquimia entre vida e morte, vida e teatro. No entanto, o trabalho de Chloé Zhao dessa vez é morno, apático em boa parte do tempo, sem pulsão cinematográfica nem emocional.
Apesar da energia colocada na encenação, da mirada esperta para as locações de Taipei e da espontaneidade das interpretações, A GAROTA CANHOTA me pareceu bastante banal como construção dramática.