Braçadas de rara ousadia

A CRONOLOGIA DA ÁGUA tem uma gramática muito especial para exprimir os ecos de memória, a onipresença da dor na vida de Lidia Yuknavitch e a vertigem a que ela submetia seu corpo pelo sexo, as drogas e a autossabotagem.

Na nuvem das suposições

Tudo é suposto em A MENSAGEIRA. Tudo é nebuloso, interrompido a meio caminho, dissimulado por uma montagem dispersiva, que mais “desconversa” do que “costura”.

Um presidente descobre a dúvida

Em A GRAÇA, Toni Servillo é a encarnação perfeita de um homem austero e frágil, impávido até a medula, dividido entre suas convicções e os apelos de uma sociedade que quer se mover no tempo.

Parque da Alegria

PARQUE LEZAMA é um simpático exercício teatral em torno da amizade, do valor da fabulação e dos sonhos que vamos deixando para trás. Pena que o filme dependa demais dos diálogos e dos atores, todos de qualidade, mas insuficientes para superar a marca de teleteatro.

Amélie, um bebê que se regenera

Nada contra os bons sentimentos, desde que seja com bons argumentos. A PEQUENA AMÉLIE, indicado ao Oscar de longa de animação, não cumpre o que promete com verve irônica nas primeiras cenas.

Suspeita de mãe

Em MOTHER’S BABY, o que pode parecer, a princípio, uma simples depressão pós-parto não cessa de evoluir para algo cada vez mais inquietante.

Melodrama nos palcos do kabuki

KOKUHO – O PREÇO DA PERFEIÇÃO é longo e tem subplots familiares que não se esclarecem bem. Ainda assim, somos levados pela excelência da realização e a curiosidade a respeito dos ritos e do esquema extremamente codificado do kabuki.

Carnificina física e espiritual

O estilo “documental” e a boa atuação do elenco de O CASO DOS ESTRANGEIROS garantem uma base de qualidade inegável, mas é de se perguntar a que serve tamanha exploração da agonia dos refugiados.

Viagem ao fundo do nada

Mad Max foi à rave e acabou num campo minado. Esta seria minha sinopse de SIRĀT, filme que absorve a auto-alienação dos personagens como dramaturgia.

Estranhas formas de vida

O díptico MAL VIVER e VIVER MAL forma um testamento magistral do cineasta português João Canijo, um primor de construção dramatúrgica e direção de elenco. No streaming.

Vício frenético

Com um desempenho notável de Carolina Dieckmmann, a comédia dramática (DES)CONTROLE explora a sobrecarga de afazeres e informações da vida contemporânea num Rio de Janeiro com cara de Globofilmes.

Ônibus 963

Notas sobre o drama de catástrofe O ÔNIBUS PERDIDO e o documentário político-musical UNITE FOR BISSAU.

O conformista de Tel Aviv

YES ensaia uma crítica às canções patrióticas, ao poder econômico que sustenta o belicismo israelense e à convicção de que Israel é uma boa terra, de boa gente.

Uma advogada contra o obscurantismo

Sem carregar nas tintas do filme de causa, mas usando um estilo similar ao dos filmes políticos de Ken Loach, Dolores Fonzi reconta dignamente um episódio crucial da luta feminista na Argentina em BELÉN – UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA.

Uma dor difícil de calar

Na avalanche de filmes sobre luto que tem aparecido ultimamente, o islandês QUANDO A LUZ ARREBENTA é uma variante relativamente original. Trata-se de uma dor que não pode ser externada.

Um hipopótamo na sala de jantar

ZAFARI ostenta um certo parentesco com “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, tanto na ambientação do condomínio como nas paranoias de uma classe média que se sente ameaçada.

O último tango em Montevidéu

MILONGA tem algumas qualidades frequentes em dramas humanos uruguaios: flui de maneira simples e suave, com algum humor, mesmo quando os fatos e sentimentos assumem proporções graves.

Antes da rajada fatal

A principal força e razão de ser de A VOZ DE HIND RAJAB está já no seu título. É o uso da voz real da menina de seis anos que pereceu sob tiros de soldados israelenses num posto de gasolina de Gaza.

Chanchada coreana óbvia e grosseira

A intenção de A ÚNICA SAÍDA é clara: satirizar o espírito de competição no mundo corporativo, as mensagens motivacionais, etc. Mas tudo é feito com tamanhas obviedade e grosseria que só se justifica por um conceito de comicidade muito particular coreano.

Latinices da Broadway

Embora seja bem intencionado em relação à mensagem de Manuel Puig, o novo O BEIJO DA MULHER ARANHA estaciona na cafonice ao combinar uma estereotipia latina com clichês da Broadway.

Do luto à cena

HAMNET quer dar conta de uma alquimia entre vida e morte, vida e teatro. No entanto, o trabalho de Chloé Zhao dessa vez é morno, apático em boa parte do tempo, sem pulsão cinematográfica nem emocional.

Barracas e barracos em Taipei

Apesar da energia colocada na encenação, da mirada esperta para as locações de Taipei e da espontaneidade das interpretações, A GAROTA CANHOTA me pareceu bastante banal como construção dramática.