A empregada e a jornalista

Notas sobre A MULHER QUE CHORA e A CONSPIRAÇÃO CONDOR

A “Chorona” brasileira

Boas intenções não faltam em A Mulher que Chora. A começar por trazer para o Brasil a lenda do folclore mexicano sobre “La Llorona”, que se espalhou por toda a América Latina. Na versão original, A Chorona é uma mulher que, tendo sido abandonada pelo marido, afoga seus dois filhos e é condenada a vagar pela eternidade até encontrar os corpos das crianças. Em A Mulher que Chora, há duas mães que simbolicamente “mataram” seus filhos por alguma forma de abandono.

Elena (Julia Stockler), abalada pela separação do marido, afasta-se do filho de sete anos, Miguel (Zayan Medeiros). O menino volta sua carência para Carmen (Samantha Castillo), a empregada venezuelana, que por sua vez deixou para trás o seu próprio filho.

A relação entre Miguel e Carmen torna-se ambígua em vários sentidos. Tem um aspecto maternal, mas também algo de erótico. É física e real, mas também matizada pelo sobrenatural. Carmen lhe conta a lenda da Chorona, que Miguel reproduz em sua imaginação durante as incursões por uma certa floresta proibida.

Naquela casa fechada e isolada do resto do mundo, três gerações de mulheres convivem silenciosamente na maior parte do tempo. O diretor venezuelano George Walker, radicado no Brasil desde 2016, aposta muito numa narrativa visual, valorizada pela iluminação meio irrealista do diretor de fotografia Leo Bittencourt. Essa opção, porém, me pareceu insuficiente para descortinar os pequenos mistérios insinuados aqui e ali.

Com isso, o filme resultou lacônico, moroso e dispersivo. Nenhum dos personagens consegue se estabelecer com alguma solidez, nem tampouco a localização possivelmente próxima da fronteira com a Venezuela. Um eventual paralelo com a realidade venezuelana recente tampouco se desenha com alguma clareza. Resta o intento elogiável de inserir o Brasil nessa mitologia latino-americana, sempre tão distante de nós.

A repórter secreta

As mortes de Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Carlos Lacerda num período de nove meses, entre agosto de 1976 e maio de 1977, sempre levantaram suspeitas quanto à ação da Operação Condor, esquema montado por ditaduras latino-americanas para eliminar seus oponentes com apoio dos EUA. Os três planejavam uma Frente Ampla contra o regime militar.

Volta e meia o assunto volta à baila pelas vias da política e do jornalismo investigativo. O cinema também se ocupa do tema, como nos documentários Condor e Dossiê Jango, e no animadoc Atiraram no Pianista. André Sturm pegou o bastão com uma história abertamente ficcional a partir das conjecturas em voga. A Conspiração Condor é um thriller político com tinturas de Todos os Homens do Presidente.

Silvana (Mel Lisboa em boa atuação), colunista social de um jornal paulista, é enviada pra colher fofocas de celebridades no velório de JK. Por acaso, ouve uma confidência sobre o acidente que teria matado o ex-presidente. Aquele rápido testemunho parece mudar o rumo da jornalista, que se lança a uma investigação secreta junto com uma colega rival – tal como Bob Woodward e Carl Bernstein no Watergate. Até mesmo um informante da polícia (Marat Descartes) terá papel semelhante ao do “Garganta Profunda” estadunidense.

A inserção de uma longa sequência com o experimento ético-científico na cadeira elétrica está ali para sublinhar o valor da obediência num contexto de autoritarismo. Silvana personifica o oposto disso: a persistência do bom jornalista investigativo em meio às notícias de silenciamento das testemunhas possíveis da morte de JK e às dúvidas quanto ao alegado infarto de Jango. O filme retrata o clima de censura e autocensura nas redações da imprensa da época (a mesma de O Agente Secreto). Silvana mantém uma estranha relação de amizade com o censor instalado no jornal, um dos três personagens que revelarão camadas distintas ao longo da história.

Nesse sentido, A Conspiração Condor mostra certa eficiência na dramaturgia do gênero. Falha, porém, na reconstituição de época muito frágil, em muitos diálogos explicativos, na caracterização afetada do chefe de redação e em participações especiais que soam caricatas. Por exemplo, Pedro Bial no papel de Carlos Lacerda, ou o próprio André Sturm em aparição estapafúrdia para explicar o argumento do filme Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate).

>> A Mulher que Chora e A Conspiração Condor estreiam nos cinemas nesta quinta-feira, 9/4.

 

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