Play: Murilo Salles

Os DVDs de quatro filmes de Murilo Salles estão chegando às boas casas do ramo. É coisa para se comemorar. A filmografia de Murilo é essencial no cinema brasileiro contemporâneo por algumas boas razões, a começar pela originalidade com que ele aborda os temas escolhidos.

A época da ditadura militar, por exemplo, aparece pelas frestas de um apartamento semivazio em Nunca Fomos Tão Felizes, onde a relação episódica entre um pai e um filho desenha os dilemas geracionais do país à época. Em Como Nascem os Anjos, um dos primeiros filmes a tratar da entrada dos adolescentes no mundo da violência urbana, mais uma vez ele criou um microdrama exemplar. A exposição de Japa e Branquinha à mídia antecipou, se olharmos bem, a tragédia do ônibus 174.

Muitos não compreenderam a profunda ironia que banha Seja o que Deus Quiser, com sua inversão de estereótipos para dissecar as novas configurações de classe e raça nas grandes cidades brasileiras. Mais uma vez, Murilo fugia aos padrões dominantes no nosso cinema, tanto o de crítica social como o de entretenimento, e entregava um filme com marca própria.

O pacote se completa com o policial Faca de Dois Gumes, um dos melhores exercícios num gênero habitualmente ingrato para os cineastas brasileiros.

O recente Nome Próprio já está nas locadoras. Cinema de poesia antenado com a era digital, Nome Próprio faz uma crônica do amor nos tempos do modem. Tem qualidades que vão muito além da exuberante atuação de Leandra Leal. E o DVD vem com extras super-criativos, que dissecam o filme por diversas vias de acesso.

Murilo Salles abriu essas janelas para diferentes momentos da nossa paisagem emocional sem incorrer em lugares-comuns e sem abrir mão de um extremo bom-gosto na criação e no acabamento dos filmes. Não fosse ele um dos fotógrafos que renovaram a estética do cinema brasileiro entre os anos 1970 e 80, com filmes como Lição de Amor, Dona Flor e seus Dois Maridos, Cabaret Mineiro e Eu te Amo.

Os quatro novos DVDs podem ser comprados nas livrarias da Travessa, DaConde, Arlequim (Rio), na Cultura (SP) ou pela internet na 2001 Vídeo

Um comentário sobre “Play: Murilo Salles

  1. “Nunca fomos tão felizes” ou como dizia o tírulo no encerramento do filme: “tão felizes nunca fomos” – um dos garndes filmes brasileiros de todos os tempos. Sem desmerecer o excelente “Como nascem os Anjos” e o muito mal-compreendido “Seja o que Deus quiser”.

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