Memórias de Xangai

Longa viagem à superfície

Jia Zhang-Ke deixa de lado os dilemas da contemporaneidade chinesa e faz seu mergulho na história de Xangai dos anos 1930 aos dias atuais. Um mergulho baseado principalmente nas memórias de 18 pessoas que vivem ou viveram na mais dinâmica cidade da China. São histórias de famílias, perdas, revoluções e reinvenções de identidade, contadas em depoimentos relativamente convencionais. A câmera de Yu Likwai comporta-se como em outros filmes de Zhang-Ke, desenhando panorâmicas lentas em frente aos entrevistados ou enquadrando-os através de vidros, esquadrias etc.

Há curiosidades compensadoras, como a de uma operária-padrão do maoísmo que virou personagem de cinema e conta sua emoção ao deparar-se frente a frente com o Chairman Mao. Ou a do homem que relata sua transformação em especulador de seguros na Xangai neocapitalista. O filme tem até o seu momento-Coutinho, com um personagem que canta a canção-título I Wish I Knew, importante para o seu passado numa Xangai internacionalizada. O elenco inclui gente de cinema, como o diretor Hou Hsiao-Hsien, a atriz-cantora Rebecca Pan e um assistente de Antonioni nas filmagens de Chung Ko, que ganhou reputação de traidor por ter ajudado a revelar o lado feio da China nos anos 1970. Nesse time, faz falta Wong Kar-Wai, um xangainês de nascimento.

O problema é que a maior parte das falas são longas e frequentemente recheadas de detalhes desinteressantes para os não-iniciados na atribulada história da cidade. A sucessão de depoimentos torna o filme pesado e alongado (são 138 minutos), com poucos respiros para a inclusão de um ralo material de arquivo, algumas cenas de filmes e as belas – mas frequentemente vazias – imagens da Xangai atual, dos velhos hutongs (becos) à futurista mega-arquitetura do Pudong. Mais vazio ainda é o recurso a uma personagem ficcional que vagueia como um fantasma pela cidade, introduzindo um clima mais fashion que propriamente metafísico, como parece ter sido a intenção.   

A teatralização do real, proposta central na filmografia de Jia Zhang-Ke, tem aqui um capítulo menos feliz.

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