Cenas de um cineasta sueco

…MAS O CINEMA É MINHA AMANTE + IMAGENS DO PLAYGROUND
de Stig Björkman

Bem antes de morrer, Ingmar Bergman já tinha o seu espólio cinematográfico disseminado em documentários, filmes-entrevista, colagens etc. Talvez só Fellini disponha de tanto material filmado sobre sua persona e sua obra. Mesmo com tamanha oferta, esses dois filmes que o É Tudo Verdade apresenta na sessão de abertura carioca merecem ser vistos com imensa atenção. Stig Björkman é um dos mais antigos colaboradores e pesquisadores da obra de Bergman. Ninguém melhor do que ele para bem explorar o “baú” de cenas de bastidores da Ingmar Bergman Foundation.

O longa-metragem de 2010 tira seu título da célebre frase de Bergman: “O teatro é minha mulher, mas o cinema é minha amante”. Partindo da reconstituição da última cena filmada por Bergman (para Saraband), Liv Ullman introduz o fio de memória que vai revisitar os sets de oito filmes do diretor. Nunca é demais ver Ingmar e Ingrid deitados no tapete descobrindo a personagem de Sonata de Outono; ou as atrizes de Gritos e Sussurros preparando-se para o passeio no parque que conclui o filme. As cenas de filmagens, algumas ilustradas pelos respectivos trechos prontos, servem de leito para comentários em off de Bergman sobre seu admitido autoritarismo e o prazer que tirava do cinema, mesmo quando mostrava o horror. Outras pílulas de áudio trazem elogios de Olivier Assayas, Arnaud Desplechin, Bertolucci, John Sayles, Von Trier, Scorsese e Woody Allen.

Enquanto no longa predominam cenas da obra mais recente, no curta Imagens do Playground, anterior em um ano, reinam os bastidores dos filmes do período 1953-1965. Aqui Björkman privilegiou as imagens mais lúdicas: brincadeiras entre atores, caretas, flertes, out-takes. Bergman comparava a entrada no set aos momentos da infância em que retirava os brinquedos da caixa, mas com uma ressalva: “Agora sou pago para isso e todos parecem me obedecer”. Nesse playground, os anos da mocidade transpiram sensualidade e alegria de viver. Aspectos que à vezes a gente esquece quando pensa no conjunto da obra do mestre sueco.

As duas compilações de Stig Björkman podem não ser profundas ou especialmente reveladoras, mas trazem um prazer enorme para os fãs de Bergman – e um estímulo para quem ainda pretende conhecê-lo.        

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