Fora de cartaz

ANOTHER YEAR (2010) é mais um filme de Mike Leigh sobre a felicidade. Estranho dizer isso de um diretor que fez coisas duras como “Segredos e Mentiras” e “Vera Drake”. Estranho dizer isso de um filme em que vemos uma mulher de meia-idade fragilizada por extrema carência afetiva e pelo medo de envelhecer (Mary/Lesley Manville); outra deprimida por uma vida infeliz coroada pela insônia (Janet/Imelda Staunton confinada apenas à cena inicial, uma pista falsa de que será ela a personagem principal); um homem que afoga a solidão em comida (Ken/Peter Wight); um cunhado amargurado à beira da demência (Ronnie/David Bradley); um sobrinho raivoso e problemático (Carl/Martin Savage). É que a felicidade em Mike Leigh vem sempre ao custo de muito sofrimento – e isso se vê de maneira especial em “Simplesmente Feliz”. Todos esses personagens infelizes de “Another Year” estão ali para servir de contraste ao que importa de fato: mostrar a plena e plana felicidade do casal central, Tom/Jim Broadbent e Gerri/Ruth Sheen. Eles vivem tranquilos há mais de 30 anos em torno do trabalho, da sua horta, dos seus chás e da solidariedade para com os seus entes queridos. Eles não têm nenhuma receita de satisfação e harmonia para passar aos outros, nem ao espectador. Apenas vivem em paz, tendo sempre uma mínima palavra de conforto para quem precisa. No fundo, essa simples disposição para compreender tem um pouco da formalidade britânica, mas é fruto principalmente do estado de espírito que eles cultivam junto com as sementes e tomates do seu quintal. Um estudo da felicidade simples, construído em silêncio pelo simples contraste com os demais personagens. E para isso Mike Leigh excede novamente na direção de atores excepcionais, cujas inflexões e sutilezas nos diálogos naturais e precisos nos colocam dentro de um drama que se permite ser também uma comédia humana. Um reflexo da vida no qual todos nos reconhecemos.

Feliz sou eu que tenho em Maputo o meu amigo Aldino Languana, que me envia novidades do cinema moçambicano. Com destaque para os filmes do Licínio Azevedo, esse brasileiro da gota que vive e filma por lá há 35 anos. Há pouco tempo recebi o DVD de VIRGEM MARGARIDA, o seu longa mais recente. Dessa vez não se trata de um doc, nem de um híbrido, searas mais frequentadas por Licínio. É uma ficção de época, inspirada em eventos de 1975, logo após o fim da guerra de independência de Moçambique. O trabalho de descolonização no início do governo de Samora Machel se confundia com uma ditadura da ideologia. O filme aborda a “reeducação” de um grupo de prostitutas de Maputo num campo de trabalho no interior do país. Sob as ordens de uma comandante autoritária, em regime militarizado, as mulheres de “baixa vida” são instruídas a se tornarem camponesas, efígies da “nova mulher” almejada pelo regime. Algumas prisioneiras se empenham em obter a liberação de Margarida, a virgem do título, jovem camponesa presa por engano enquanto visitava a cidade para comprar seu vestido de noiva. O destino da menina vai comprovar que, para além das palavras de ordem, o pensamento machista predador não depende do sistema político. O argumento é excelente, com muitas variantes da questão em jogo, inclusive o fato de que a própria comandante é uma mulher impedida de viver seus projetos pessoais. Pena que a encenação seja bastante precária, com atrizes inexperientes e pouca sutileza na exposição dos conflitos de ideias e posições. Ainda assim, é mais um resultado quase miraculoso que Licínio obtém em condições tão difíceis. Não tanto pelos recursos, obtidos com ajuda da Holanda, França e Portugal, mas pelas carências inatas de um cinema sem fomento nem continuidade.

Só agora vi O VERÃO DE SAM, filme de Spike Lee de 1999. Como todo mundo sabe, é uma história de preconceito, intolerância coletiva e violência inventada pelos roteiristas a propósito de um serial killer dos subúrbios de Nova York em 1977. Lee usa o caso para traçar um painel da era disco, do surgimento do punk e da era de alta criminalidade naqueles locais. A partir de uma lista de suspeitos, um grupo de jovens fascistóides italo-americanos vitimiza um punk-roqueiro que fazia michê e filmes pornôs. O episódio antecipou a mesma mecânica que recentemente levou uma mulher inocente a ser linchada no Guarujá, SP. Em 1977 não havia Facebook, mas sim uma “rede social” baseada na fofoca, nas acusações irresponsáveis e no ódio ao diferente. Se o filme já era chocante há 15 anos, agora me pareceu ainda mais.

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