ÉTV: CitizenFour

Como exemplar cinematográfico, CitizenFour é bem mais modesto que Virunga, concorrente derrotado ao Oscar de documentário. No entanto, tem a virtude de captar um momento histórico na mais absoluta intimidade. Laura Poitras, documentarista investigativa vigiada de perto pelo governo americano desde 2006, já registrava atividades da NSA – National Security Agency desde sua construção, em 2011. Quando Edward Snowden decidiu denunciar o esquema de monitoramento mundial no qual trabalhava, em junho de 2013, escolheu Laura e o jornalista e advogado americano Glenn Greenwald como seus primeiros canais de divulgação. Assim é que a câmera de Laura se encontra no quarto de hotel de Snowden em Hong Kong antes mesmo de a “bomba” explodir.

Diante das lentes, Snowden explica suas razões políticas e morais, acusando Obama de ter descumprido sua promessa de não aumentar o poder do Estado sobre a privacidade dos cidadãos. O que vemos é um herói destemido e cool, que parece pouco nervoso mesmo nas horas decisivas de sair clandestinamente do hotel com rumo incerto depois de detonado o escândalo e revelada sua identidade. O acaso mostra que um alarme de incêndio, por exemplo, pode deixá-lo muito mais inquieto do que a possibilidade de ser caçado pela CIA e o FBI juntos.

Após a entrada de Snowden na clandestinidade, o filme prossegue na cobertura dos principais lances do caso, nos EUA, na Europa e também no Brasil, onde vive Glenn Greenwald. O clima é de thriller de espionagem, envolvendo mensagens criptografadas, senhas digitadas em baixo de panos e anotações secretas rasgadas logo depois de lidas. Nos créditos finais há um típico reconhecimento aos softwares e ferramentas de criptografia sem os quais “a realização deste filme não teria sido possível”.

Mas o que distingue CitizenFour de outros doc-thrillers políticos recentes é, por um lado, o papel crucial da imprensa como intermediária e devedora de uma ética perante suas fontes, por mais enigmáticas que elas possam ser a princípio. Por outro lado, cabe destacar a discrição da realizadora. Laura Poitras não apela a qualquer truque de linguagem ou “reforço” de dramaticidade. A confiança no material e na oportunidade que vivenciou foi o grande trunfo para um filme simples, direto e ainda assim memorável.

Para quem está longe do festival e de alguma cópia legendada, o filme pode ser visto no original em inglês no site Thought Maybe  ♦ ♦ ♦ ♦

Um comentário sobre “ÉTV: CitizenFour

  1. Pingback: Melhores de 2015 | ...rastros de carmattos

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