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Só a Sonata em lá maior de Schubert faz calar, por breves momentos, os personagens de Sono de Inverno, que conquistou a Palma de Ouro de Cannes no ano passado. Mais que qualquer outro trabalho de Nuri Bilge Ceylan, este é baseado em longas e absorventes conversas, que poderiam perfeitamente se passar num teatro – ambiente, aliás, de onde vem o personagem central, um ex-ator.

Aydin se julga um artista, um intelectual e um esteta, mas vive como capitalista arrogante e preconceituoso, explorando o aluguel de várias propriedades no interior da Turquia e administrando um hotel-caverna. Do lado de fora, a paisagem exótica da Capadócia, mas ficamos 95% das 3h16 de filme encerrados em interiores, siderados pela conversação. Aydin se julga também um homem justo e deve confrontar sua auto-imagem com as reações de outras pessoas: da jovem esposa que canaliza sua infelicidade para o campo da benemerência, da irmã amargurada pelo divórcio e de uma família pobre e humilhada que lhe deve aluguel e está ameaçada de despejo.

As intermináveis discussões revolvem em torno de moralidade, consciência, generosidade e culpa. Carregam a paixão tipicamente muçulmana pelo debate exaustivo até que se chegue a uma posição (ou manipulação) que aplaque as consciências e dilua os conflitos. No fim das contas, o que prevalece são as imperfeições da vida, tão incontornáveis quanto a neve que cobre tudo no branco inverno. Este pode não ser o filme mais exuberante de Ceylan, mas a genialidade de sua direção está inteira na condução dos diálogos, na densidade da atmosfera e na forma como nos arrasta para o âmago daquelas vivências, de uma maneira e num tom que só Bergman dominava.