Duas vezes Música

Flautistas Brasil afora e um maestro prodigioso

Estreia no Mimo Festival – Paraty, no próximo dia 3, o novo filme de Beth Formaggini. Na vigente cacofonia de documentários musicais por aqui, XINGU CARIRI CARUARU CARIOCA (a música já começa no título) tem uma personalidade toda especial. A viagem pelos sopros brasileiros é conduzida como uma série de encontros do flautista carioca Carlos Malta com seus colegas de ofício em aldeias indígenas e bandas de pífanos nordestinas. Poucas vezes a interação de conversa e performance se deu com tamanha naturalidade e poder de encantamento. Malta se revela um ótimo âncora de documentário e um pesquisador perspicaz.

Em cada uma das regiões, Malta e Beth recolhem a essência de cultura que move os músicos. Entre os Kuikuro do Xingu, por exemplo, a flauta tem valores sagrados e de interdição. Uma espécie de procissão musical de oca em oca produz uma das sequências mais bonitas que vi nos últimos tempos. Já no Crato e em Caruaru, o filme vai encontrar pifeiros célebres como Raimundo Aniceto (na foto acima, com Malta), João do Pife, Marcos do Pife e Chau do Pife. A festança desse povo na Feira de Caruaru é outro momento de puro deleite. Em Monteiro, na Paraíba, Malta vai visitar a veteraníssima Zabé da Loca – e a visita se transforma numa comovente celebração em torno da mitológica figura. O périplo pifeiro vem terminar com um cortejo musical no Rio, onde músicos vão se juntando à banda Pife Muderno até atingirem a foz do Rio Carioca.

A imensa simpatia desse projeto contagia o espectador do início ao fim. Não há qualquer retórica ou informação enfiada goela nossa abaixo. Se acabamos aprendendo muito sobre os sopros brasileiros, é porque testemunhamos encontros entre gênios do instrumento. Ao mesmo tempo, o filme vai criando pontes e intercâmbios entre as culturas indígena, popular e pop, fazendo emergir em cada campo o traço comum da alegria em fazer música.


O recente Festival de Brasília teve a primeira exibição do documentário SANTORO – O HOMEM E SUA MÚSICA, de John Howard Szerman. Como o título bem objetivo sugere, não há qualquer pretensão além de estender um painel sobre a vida social de Claudio Santoro (1919-1989) e a abundante variedade de sua obra. O tom de tributo é inevitável, mas nunca perde de vista a sobriedade e a ancoragem firme na música. Em concertos com diversas orquestras e solistas, ouvimos/vemos exemplos das muitas vertentes da obra de Santoro: sinfônica, nacionalista, dodecafônica, experimental, música aleatória, trilha de cinema, canções românticas.

Felizmente, Szerman não insiste na tentação de ilustrar a música com imagens, procedimento que tem o risco da cafonice sempre à espreita. Mas faz um gol de placa ao animar as partituras das Interações Assintóticas (foto) e das Mutationen III. As imagens dos depoimentos padecem de uma certa “dureza”, sendo compensadas por uma montagem esperta que dá conta dos aspectos biográficos e musicográficos. Aluno de Hans-Joachim Koellreutter e Nadia Boulanger, Santoro teve uma vida difícil por ser de esquerda durante a ditadura, o que lhe privou de oportunidades e lhe custou muitos anos de exílio na Alemanha. Trabalhou como um operário da música e morreu no palco, durante um ensaio em Brasília, sua última morada.

Um filho pianista, outro DJ e uma filha pintora levam adiante a presença do pai dentro do filme, além da viúva Gisèle, que colaborou no roteiro. Filme de família, dirão, e não há como negar. Filme de músicos, sem dúvida, pois mestres como Edino Krieger, Julio Medaglia e Guilherme Vaz lá estão para reverenciar o colega. Filme de respeito, pois joga luzes sobre um artista que não merece a penumbra.

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