Polônia, modo de viver

Uma pequena mostra de cinema polonês vai disputar as atenções dos cinéfilos cariocas durante o Festival do Rio. De 5 a 8 de outubro, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro vai apresentar seis filmes inéditos no Brasil, que retratam as mudanças ocorridas na sociedade polonesa desde os anos 1940. A mostra Histórias de Transformação, sempre com entrada franca, salta para o CCBB de São Paulo de 15 a 19 de outubro.

O panorama começa na II Guerra, quando se passa Como Ser Amada (1962), de Wojciech Has, história de amor entrelaçada com o colaboracionismo e estrelada pelo mítico ator Zbigniew Cybulski. A década de 70 está representada por uma obra-prima do documentário polonês, Como Viver (1977), do mestre Marcel Łoziński.

Talvez seja arriscado chamar Como Viver (foto acima) de documentário. O filme mescla procedimentos de observação com cenas dramatizadas para mostrar o funcionamento de um acampamento de férias para jovens casais, onde os hóspedes recebem lições de como se comportar numa sociedade socialista. A fronteira entre os registros documental e ficcional é bastante fluida. Temos acesso tanto à suposta intimidade de uma das famílias como às reuniões do “comando” do acampamento. Durante o período das férias, os veranistas concorrem ao título de “Família Exemplar”, tendo como prêmio uma máquina de lavar.

No seu aspecto de observação comportamental, Como Viver se aproxima de um As Férias do Sr. Hulot em versão stalinista. No aspecto mais grave, aponta na direção de 1984 ou de Jesus Camp, o chocante doc americano sobre doutrinação de crianças num acampamento de católicos fundamentalistas. A competição das famílias serve como pretexto para uma nada discreta investigação da conduta das pessoas pelos membros do “conselho”. Observar logo se torna vigiar, disciplinar, estimular a delação e exercer o controle social. Convocações em alto-falantes, sabatinas políticas, urnas para denúncias anônimas e até interrogatório de crianças compõem uma atmosfera típica de regimes totalitários, com a desculpa de que o país, ali em 1976, ainda não estava “muito seguro”.

Ora infame, ora divertido ou patético, Como Viver só deixa uma grande dúvida no espectador de hoje: até que ponto aquela experiência concentracionária servia como microcosmo da Polônia comunista ou era uma farsa destinada a denunciar pelo absurdo e a exorbitância.             

Baseado em história verídica ocorrida em 1985, 300 Milhas até o Céu (1989), de Maciej Dejczer, aborda a imigração ilegal pela ótica da infância. Dois garotos de uma família muito pobre, cujo pai é um professor perseguido político, nutrem fantasias de fuga para “o Oeste” capitalista (razão pela qual o termo “paraíso” cairia melhor na tradução do título). Inspirado pelos pássaros migratórios, depois de várias tentativas frustradas eles embarcam numa aventura escondidos embaixo de um caminhão rumo à Dinamarca.

O filme tem a aspereza do realismo do leste europeu somada ao esmerado senso imagético dos diretores poloneses. Neste seu longa de estreia, Dejczer se excede um pouco em algumas passagens mirabolantes e na dramatização lacrimosa dos sentimentos. Ainda assim, 300 Milhas é um forte libelo contra a insensibilidade e a corrupção dos burocratas, assim como um tenso thriller de escapada. Os pequenos atores deixam uma impressão muito viva do que era crescer num ambiente sem perspectivas e nutrir ilusões tão frágeis quanto um biscoito.

Dos anos 1990, serão exibidos dois filmes. Corvos (1994), de Dorota Kędzierzawska, é um complexo e premiado drama sobre uma menina de nove anos que sequestra outra de três para brincar de mãe. Dívida (1999), de Krzysztof Krauze, segundo a sinopse, transforma uma história de crime em um intenso conto psicológico na linha do Crime e Castigo de Dostoiewski. A mostra se completa com a ficção científica O-Bi, O-Ba: O Fim da Civilização, de Piotr Szulkin, que mostra sobreviventes de uma guerra atômica sendo brutalmente manipulados pela mídia e pelo regime em vigor.

A programação:
Segunda-feira, 05/10
14h – Como Ser Amada
16h – Como Viver
Terça-feira, 06/10
14h – O-bi O-ba: O Fim da Civilização
16h – Corvos
Quarta-feira, 07/10
14h – 300 Milhas até o Céu
16h – Dívida
Quinta-feira, 08/10
14h – Como Viver
Sessão seguida de debate

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