Palavra de documentarista

Talvez pela proximidade com o jornalismo e as ciências humanas e sociais, o cinema documental sempre se fez acompanhar de importantes reflexões e textos teóricos produzidos pelos próprios cineastas. Em larga medida, a história das ideias nesse campo tem sido construída com base na contribuição escrita de mestres do ofício como Dziga Vertov, John Grierson, Joris Ivens, Jean Rouch, Johan van der Keuken, Artavazd Pelechian e João Moreira Salles, entre tantos outros. O livro A Verdade de Cada Um, organizado por Amir Labaki (CosacNaify, 2015), reúne 32 textos dessa natureza.

Há bastante diversidade no interior desse conjunto. O aspecto mais propriamente historiográfico é coberto, por exemplo, pelas anotações detalhadas de Robert Flaherty a respeito das filmagens de Nanook, o Esquimó, ou pelo levantamento de Jean Rouch sobre a evolução do filme etnográfico até o final dos anos 1960. Já a descrição de métodos engloba desde os conselhos de Alberto Cavalcanti e Viktor Kossakovski aos documentaristas iniciantes até as pormenorizadas explanações de Jonas Mekas, van der Keuken e Marina Goldovskaia sobre suas respectivas maneiras de trabalhar, passando pelas instruções ácidas e bem-humoradas de Peter Wintonick (“Todos os cineastas nasceram iguais. Alguns têm um marketing melhor”).

Na seara do ensaio propriamente dito, há pérolas como o de Harun Farocki sobre as diversas filmagens da saída de operários da fábrica na história do cinema. Ou o amplamente esclarecedor texto de Pelechian sobre os fundamentos da sua montagem distancial (conforme a nova tradução proposta por Luís Felipe Labaki para o que antes chamávamos de “montagem de contraponto”).

Para além das questões de linguagem, discutem-se também a ética e as relações entre cinema e realidade. Há os que propugnam para o documentário um papel de transformação do mundo e os que rejeitam essa função (“É melhor que seu filme mude você mesmo”, aposta Kossakovski). Cabem no livro manifestos e também alguns textos mais prosaicos, como a carta de Marcel Ophuls aos espectadores brasileiros do É Tudo Verdade. Jia Zhang-ke e Krzysztof Kieslowski estão entre os poucos cineastas cujos textos escolhidos ficam bastante aquém do que eles já escreveram sobre a arte de documentar.

De qualquer forma, essa coletânea representa um belíssimo acréscimo à estante brasileira sobre documentários. É de leitura obrigatória para qualquer interessado no assunto, ainda que seja preciso relevar alguns problemas de edição surpreendentes para o nível da CosacNaify: falhas de revisão da tradução e um irritante bug de fontes que truncou todas as palavras contendo o grupo consonântico “gm”, como “fragmento”, “segmento” e “Bergman”.

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