Crise, amor, amizade e piadas ruins

CAPITAL HUMANO mostra que o modelo de roteiro multiplot ainda pode render belamente quando usado com inteligência. A ação, concentrada numa noite e numa manhã, se desenrola em três capítulos simultâneos, cada um acompanhando os passos de um personagem e revelando três histórias independentes dentro de uma história única, e mais um capítulo de resolução. A identidade do responsável pelo atropelamento de um ciclista mantém o espectador no modo investigação e ao mesmo tempo o sintoniza com um amplo espectro de personagens representativos da Itália em crise de liquidez financeira. Há espaço para o biltre oportunista, o magnata em apuros, a esposa-troféu, os jovens à deriva. O título, retirado do jargão das seguradoras, ironiza a mais-valia nas relações sociais, que vem à tona no contato entre as duas famílias envolvidas.

Paolo Virzi começa a acertar pela escolha do elenco, com atores perfeitamente ajustados aos tipos correspondentes. E continua na fluidez da direção, na sustentação do interesse ao longo dos quatro blocos narrativos e na riqueza de detalhes da direção de arte. Se o elogiado “A Primeira Coisa Bela” não me tocou, este filme finalmente me convence de que Virzi é um dos grandes do cinema italiano atual. Provavelmente estará na minha lista de melhores do ano.


O amor é um pacto de silêncio, já disse alguém. Lidar com essa economia de palavras e verdades é o desafio de uma relação. O que contar? O que calar? O que dizer ou omitir depois que já se sabe tudo? 45 ANOS faz o exame minudente e sutil de uma insegurança surgida de repente num longo casamento, quando a nostalgia e uma certa obsessão por um amor antigo ameaçam abalar a estabilidade do casal. Um casal inglês provinciano, diga-se de passagem, para quem os rituais do equilíbrio social têm grande importância, e onde a ausência de filhos e de parentes próximos gera uma concentração do afeto um no outro. O filme de Andrew Haigh é correto, penetrante e meticulosamente bem dirigido, mas não vai muito além disso. Eu até compreendo por que tem sido tão superestimado. As atuações extraordinárias de Charlotte Rampling e Tom Courtenay (ambos premiados em Berlim), com uma exposição comovente da velhice – até no ato sexual – são motivo de admiração irrestrita. O tom sóbrio, desprovido de toda ênfase e contando com música apenas incidental, além de um final bastante comovente, dão ao filme um ar de importância maior do que ele realmente tem.

Uma nota curiosa: Charlotte volta a contracenar com um animal chamado Max, depois de “Max Mon Amour”, de Oshima, em que ela tomava um chimpanzé como amante.


A malandragem argentina come solta em PAPÉIS AO VENTO. Três amigos sequestram carro, roubam dinheiro, compram jornalista, falsificam vídeo e enganam-se uns aos outros, mas tudo isso com o bom propósito de satisfazer o desejo de um companheiro recém-falecido. Assim, os comportamentos mais questionáveis são vendidos como atitudes simpáticas, movidas pelo sentido de fraternidade e pela paixão futebolística. Um pouco como em tantas comédias italianas antigas, por sinal. O trio precisa promover um jogador bisonho a fim de valorizar seu passe, que fora comprado pelo amigo morto. O roteiro se baseia em livro de Eduardo Sacheri, o mesmo autor do original de “O Segredo dos seus Olhos” e do argumento da animação “Um Time Show de Bola”. Louve-se a iniciativa de fazer uma comédia dramática em torno de assunto tão árido quanto os bastidores das negociações esportivas, mas a trama se mostra confusa em vários momentos e eticamente discutível em outros. Outro fator que compromete um melhor resultado é o apelo meloso aos sentimentos de amizade, que pretende contrabalançar o amoralismo da história. Nas mãos hábeis do diretor Juan Taratuto, o elenco rende muito bem, mesmo nas cenas em que os personagens se comportam como meninos crescidos e chatos. E são muitas essas cenas.


PIADEIROS se apresenta como um “road movie da risada”: uma suposta busca, em várias regiões do Brasil e em algumas de Portugal, por gente que saiba contar piadas sem ser comediante profissional. O resultado, no entanto, é pífio, pois se sucedem os contadores sem carisma e as anedotas mais fuleiras e cansadas que se possa imaginar. A honrosa exceção é um vendedor do mercado municipal de Belo Horizonte, que realmente tem a verve da coisa. A intenção de mostrar o processo de busca dos personagens tampouco gera algum resultado interessante, revelando mais o fracasso da empreitada do que a autêntica gestação de um documentário. Gustavo Rosa de Moura desperdiçou também a oportunidade de pesquisar o status atual da piada popular no Brasil em tempos de correção política e proliferação de comédias em pé. Ainda resta o constrangimento de ver a equipe e circunstantes forçando o riso diante de tanto chiste palerma. Triste dizer, mas PIADEIROS é apenas uma piada longa, tola, velha e sem graça.

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