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Amanhã (quinta) volta à tela grande no Rio uma obra-prima de Ingmar Bergman. Morangos Silvestres é mais um clássico restaurado que chega aos cinemas no projeto “Clássica” das distribuidoras FJ Cines e Zeta Filmes. Eles já relançaram O Sétimo Selo, A Doce Vida, Nosferatu de Herzog e Mamma Roma. Para janeiro anunciam o filme dos filmes, Oito e Meio, e para fevereiro, Fitzcarraldo.

Quando vi Morangos Silvestre pela primeira vez, há 36 anos, era um tempo em que podíamos entrar e sair das salas de cinema ao nosso bel prazer, pois os ingressos não eram específicos para determinada sessão. Assim, estatelado nos créditos finais, permaneci na poltrona para rever o primeiro sonho do Professor Borg, aquele do relógio sem ponteiros e do caixão. Tinha certeza de que aquilo era uma das sequências mais deslumbrantes da história do cinema. Aliás, o filme inteiro é nada menos que isso. Desde então, o revi em VHS, DVD e agora na cópia restaurada em cartaz. O DCP não tem a mesma qualidade de uma boa cópia 35mm, mas é o melhor que se tem à mão hoje em dia.

O 18º longa de Bergman é um road movie e ao mesmo tempo um dream movie. A estrada é uma clara metáfora da tomada de consciência de Borg a respeito da proximidade da morte, das limitações de seu humanismo e da impossibilidade de acessar o passado a não ser como sonho ou devaneio. As relações dele com a velha criada, a nora, o filho, a mãe e as pessoas com quem encontra no caminho espelham os dilemas de sua própria vida: o amor disputado com os irmãos na juventude, o vínculo conflituoso com a esposa já falecida, a solidão de aposentado, a noção de merecimento quanto à comenda que está prestes a receber na Catedral de Lund.

Não sei se em algum outro filme Bergman foi tão feliz no balanço entre comédia e drama, diálogos e movimento, realismo cotidiano e evocação lírica. Nem se teve um intérprete tão profundamente identificado com seu personagem quanto o velho Victor Sjöstrom, seu mestre e referência do cinema sueco. O veículo fúnebre do famoso sonho expressionista de Morangos Silvestres é uma citação do ainda mais clássico A Carroça Fantasma, de Sjöstrom.

Abaixo, o fac-simile da resenha que escrevi na Tribuna da Imprensa em 13/6/1979, por ocaisão do relançamento do filme. É um texto ingênuo de crítico iniciante (eu escrevia no jornal havia poucos meses e ainda assinava “de Mattos”), mas contém uma pesquisa razoável sobre as motivações de Bergman e como elas se expressam na tela. Se quiser ler, clique na imagem para ampliá-la.