Tags

Quem for inteiramente alheio à ioga e às noções orientais de espiritualidade decerto não vai se interessar pelo documentário Awake: A Vida de Yogananda. Eu quis checar o que havia de documentação séria e de mistificação ou doutrinação no filme de Paola de Fiori e Lisa Leeman. Confesso que não me aborreci. Paramahansa Yogananda, nascido Mukunda Lal Ghosh (1893-1952), foi um guru indiano que projetou a ioga internacionalmente nas duas longas temporadas que passou nos EUA, nos anos 1920-40, onde fundou escolas e comunidades, entre estas a Self-Realization Fellowship (SRF), que se estende por vários países, inclusive o Brasil. Traduzir a meditação e as coisas do espírito em termos científicos foi uma de suas originalidades. Seu livro Autobiografia de um Iogue é best-seller que fez a cabeça de gente como Ravi Shankar, George Harrisson e Steve Jobs.

Esta cinebiografia incorpora trechos de seus escritos, inclusive os mais esotéricos, como a alegada consciência que ele teria trazido do ventre da mãe, as visões de vidas passadas e a certeza de ser um predestinado. Nos depoimentos de seguidores, destacam-se as referências ao poder de seu olhar, sua voz e sua figura morena e rechonchuda. Complementam vinhetas dramatizadas de Yogananda em várias idades. O filme adota, como o personagem, um tom meditativo e encantatório, quebrado apenas pela compulsão ilustrativa – competente, aliás – baseada em materiais de arquivo, cenas de filmes e de peregrinações. As imagens reais do guru são mostradas sempre em câmera lentíssima, como a evocar um odor de santidade.

Embora tenha seus direitos detidos pela SRF, o doc não deixa de mencionar os rumores de escândalos envolvendo auxiliares de Yogananda em corrupção de moças e senhoras casadas de Los Angeles. Em contrapartida, não fornece qualquer dado sobre a maneira como ele, convivendo com industriais, milionários e famosos, amealhou recursos para construir sua vasta obra monástica e educacional. Awake pode não ser do gosto de muita gente, como ocorre com filmes que tangenciam a religião, mas não pretende catequizar o público, nem dissolve o interesse documental em arremedos de misticismo.