Ovelha, Garota, Brooklyn e Jack

Caim e Abel reencarnam num remoto vale da Islândia em A OVELHA NEGRA. Dois irmãos que não se falam há 40 anos, embora morem em fazendas vizinhas, têm que se reaproximar depois que uma virose se espalha pelos rebanhos de ovelhas. O filme de Grímur Hákonarson, vencedor da mostra Un Certain Regard de Cannes e candidato islandês ao Oscar, faz um estudo da rivalidade e da proximidade atávica que une os dois irmãos solteirões. Um deles é rebelde e autodestrutuvo, o outro é um pacato e aparente cumpridor de regras. Mas essas características serão bastante relativizadas no decorrer da história.

Na Islândia existem quase três ovelhas para cada ser humano. Além de desvelar uma cultura rural rústica – em que as ovelhas determinam escolhas, afetividades, ética e sobrevivência –, Hákonarson, também autor do roteiro, criou uma história policial magnetizante, que o rigoroso inverno islandês só faz tornar mais dramática. Não há subtextos e intenções metafóricas, mas somente uma trama concisa e arquetípica, capaz de gestar um pequeno grande filme.



A minuciosa composição de Eddie Redmayne, a encenação assumidamente teatral e a presença impositiva da direção de arte (locações externas, decoração de interiores, figurinos) pode concentrar a atenção do espectador na superfície das coisas e desviá-la da complexidade do caso de Einar Wegener/Lili Elbe. Mas A GAROTA DINAMARQUESA, inspirado num dos primeiros casos de operação transexual, em 1930, é bem mais que uma brincadeira de crossdressing, como o casal de pintores Einar e Gerda encara a princípio, nos seus jogos eróticos. O quadro se complica quando vai ficando claro que Einar é, de fato, uma mulher aprisionada num corpo de homem.

O filme inventaria os meios como a Ciência da época enfrentava a questão, primeiro tentando “curar” o distúrbio, depois com as cirurgias experimentais de mudança de sexo. O inferno vivido por Einar na fronteira entre as duas condições é bem respresentado nos seus encontros com outros personagens e na forte relação mantida com a mulher. Gerda, aliás, é uma personagem tão sólida e matizada como Einar/Lili. Ela tira certo partido da situação nas suas fantasias de mulher ativa e na exploração de Lili como modelo dos seus quadros, sinalizando aqui o valor da imagem exterior na percepção dos gêneros. Ao mesmo tempo, Gerda é a corporificação de um amor sem fronteiras, capaz até mesmo de atravessar o código de sexualidade do parceiro.

Em alguns momentos, as opções narrrativas de Tom Hooper me lembraram as de David Lean, como na cena da estação de trem (uma das despedidas amorosas mais inusitadas e dilacerantes que já vi) e na comovente sequência final, pontuada pela música sempre aliciante de Alexandre Desplat.



BROOKLYN é um camafeu cinematográfico capaz de provar que o velho jeito de fazer cinema continua com muitas chances nas premiações americanas. Passado na primeira metade da década de 1950, trata de uma jovem tímida e sensível que troca um sufocante condado da Irlanda pelas mil promessas de Nova York. Enfim, um clássico romance de formação e de amor que demora bastante a lançar seus atrativos. Num meio em que todos são amáveis demais, inocentes demais, o conflito central custa a aparecer. Eilis (Saoirse Ronan) é fisgada no dilema entre dois amores, que representam o atavismo de suas origens provincianas e o senso de aventura que a levou a emigrar.

O elogiado roteiro de Nick Hornby não deixa de ter seus pontos fracos: tudo acontece de maneira razoavelmente previsível, os personagens são mais tipos que pessoas, o fantasma do melodrama choroso ronda sem parar. E, por fim, uma atitude importante de Eilis ao voltar à Irlanda não se coaduna com o perfil da moça tímida e sensível. Ainda assim, a forma como Hornby resolve o imbroglio na meia-hora final é digna de um ótimo roteirista. Com isso, o filme acaba nos carregando numa almofada de veludo que amortece as trepidações do caminho e disfarça o que há de frágil numa aura de simpatia.



Eu aconselho ver O QUARTO DE JACK sem se fixar muito na lógica da história. São tantos os buracos de dramaturgia e psicologia de personagens que o filme não resiste a uma análise mais atenta. Uma mulher sequestrada vive há sete anos trancada numa minúscula barraca em espaço suburbano, onde cria o filho de cinco anos, nascido portanto no cativeiro. Para Jack, o mundo lá fora é só uma miragem produzida pela TV e alimentada pelas histórias mágicas que a mãe lhe conta. Quando o filme começa, ela resolve enfim revelar-lhe a existência de uma realidade exterior e tentar, numa manobra arriscadíssima, tirá-lo da reclusão. A segunda parte diz respeito à difícil aclimatação do garoto e à sucessão de clausuras que o espera na dita liberdade.

O charme do filme de Lenny Abrahamson está na criação de uma atmosfera tensa por meio de enquadramentos inquietantes, cortes rápidos e inesperados, e um tratamento antinaturalista do som, com grande valorização sonora do espaço fora de quadro. O ponto de vista de Jack é assumido insistentemente, trazendo para o espectador um estado de ansiedade e estupor. A todo momento, eu temia irromper dali um truque de M. Night Shyamalan, mas todas as pistas nesse sentido acabam sendo falsas. Ficam dúvidas imensas sobre como terá sido o parto de Jack, a reação do avô ao neto, o percurso emocional da mãe e até o sexo de Jack, já que vários indícios apontam para a possibilidade de ser uma menina.

Para mim, há duas hipóteses de apreciação do filme: ou por quem gosta de coletar perguntas sem resposta para discutir depois da sessão, ou por quem se entusiasma com uma linguagem de cinema que privilegia as sensações sobre o raciocínio congruente.

2 comentários sobre “Ovelha, Garota, Brooklyn e Jack

  1. Boa tarde, não sei se você leu o livro. ao que parece não. mas tudo bem, porque o livro e o filme tem la suas diferenças, talvez até propositais (mesmo sem adaptado pela própria autora). Sobre suas dúvidas, se puder ajudá-lo, acho que sobre o parto, não é preciso lembrar quantas maes dão à luz em muitos lugsres nesse pais (que não num leito sde maternidade). O mais exdruxulo foi um parto de uma presa aqui no Rio, ela estava trancada numa solitária, e deu à luz sozinha naquele lugar. Com a estória do filme não foi muito diferente. (o detalhe que o filme não mostra é que antes desse ela ja tivera outra gravidez, em que o bebê morreu no parto). A escavadeira que é mostrada no final do filme deveria ser a cena em que o bebê morto seria desenterrado no quintal. (a propósito, o livro é baseado numa história verídica que mostra exatamente todos esses acontecimentos, e a jovem teve não um, mais 7 filhos).Sobre a sexualidade do menino, apesar de não cortar o cabelo do menino, o seu genero é deixado bem claramente explicado pela autora, tanto nas roupas de menino que ele usa, como em sua própria auto-imagem, pois em alguns trechos o menino usa o termo “pênis bobo”. O avô do menino no livro aparece e some do mesmo jeito (no livro ele mora na Australia), e sim, muitas famílias não aceitam filhos oriundos de estupro. Seria até ingenuidade do filme mostrar apenas uma familia feliz e bem ajustada com algo tão traumático. Espero ter de alguma forma ter contribuído para a apreciação, senão do filme, ao menos do livro, que é uma excelente leitura. Um abraço

    • Agradeço, Kleber, pelos esclarecimentos. Pena que a dramaturgia do filme não dê conta de todas essas circunstâncias que parecem bem apresentadas no livro. Abração

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