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Em março último fiz com minha mulher uma viagem de turismo à Austrália e à Nova Zelândia. Embora goste muito de escrever sobre viagens, por falta de tempo não pretendia produzir nenhum texto a esse respeito. Mas o convite do poeta e escritor Paulo Lima, editor da revista eletrônica Balaio de Notícias, acabou me estimulando a escolher uma foto de cada cidade visitada e acrescentar um texto-legenda que explicite algum aspecto curioso e ilustrativo do caráter de cada lugar. Apertem os cintos.

SYDNEY, a contemporânea

Sydney

Bem no centro de Sydney, local de fundação da cidade, em frente ao mar e ao inconfundível prédio da Opera House, fica o principal Museu de Arte Contemporânea da Austrália. É muito simbólico, para uma cidade que se orgulha de ser contemporânea, ter esse museu cravado justo em seu umbigo. No terraço de esculturas fica essa obra em fibra de vidro da artista Sangeeta Sandrasegar, intitulada “to be carried away by the current, to be dissolved in the Other” (ser arrastado pela corrente, ser dissolvido no Outro). Uma figura mitológica, rosto de peixe em corpo de criança, contempla a baía e aponta para o alto, aludindo às muitas levas de imigrantes que chegaram à Austrália primeiro pelo mar, depois pelo ar. Ao fundo, a colossal Harbour Bridge produz um contraste interessante com a era da mecânica, do ferro e da engenharia pesada.

Vida mansa em MELBOURNE

Melbourne

Em sucessivas eleições da Economist Intelligence Unit desde 2011, a cidade australiana de Melbourne tem sido apontada como a de melhor qualidade de vida no mundo. Os critérios levam em conta qualidade de bens e serviços, segurança, clima, etc. Esta foto, tirada numa praça do centro, muito casualmente reflete o espírito descontraído da cidade e de sua gente. O casal de mochileiros descansa no gramado em meio aos pombos, um homem refresca os pés e cochila sentado mais atrás, tudo sob o olhar do soldado imperial retratado satiricamente com um chapéu exótico e algo parecido com um celular na mão.

QUEENSTOWN, terra de brasileiros   

Queenstown

Capital mundial dos esportes radicais, dona de uma beleza plácida que não se abala com os saltos e travessias perigosas de seus frequentadores, Queenstown é a joia da Ilha Sul da Nova Zelândia. A foto mostra o brasileirinho aqui, nem um pouco desportista, relaxando à beira do Lago Wakatipu. Mas o que realmente me surpreendeu foi a quantidade de brasileiros residentes na cidade. Foi por Queenstown que demos entrada na Nova Zelândia. Já no aeroporto, a funcionária que carimbou nosso passaporte nos cumprimentou com “bom-dia, bem-vindos”. Logo adiante, o rapaz da alfândega era brasileiro também. E assim foi em táxis, supermercados, etc. Há cerca de 13 anos, o país abriu as portas para brasileiros. Muitos estudantes de inglês, turistas e praticantes de esportes acabaram ficando por lá. Obtiveram a cidadania, casaram-se, ganham bem, desfrutam da vida tranquila de Queenstown e, é claro, não pensam em voltar para o Brasil.

A luz de TE ANAU 

Te Anau

Ainda na Ilha Sul da Nova Zelândia, a cidade lacustre de Te Anau, serena e tranquilíssima, é ponto de partida para os passeios pela Fiordland, região de belíssimos fiordes, florestas imponentes e lagos espetaculares. Tudo ali depende da luz. Nosso passeio pelo fiorde Milford Sound, por exemplo, foi bastante frustrado pelo tempo ruim, que mergulhou a paisagem num cinza quase indistinto. Mas nada reduz a beleza do lugar nas bordas do dia, quando a luz se filtra pelas árvores, estende sobre as montanhas um véu místico (não é à toa que nevoeiro em inglês é “mist”) e rebate como prata nas águas.

O senhor de WELLINGTON

Wellington

O Gollum de O Senhor dos Anéis dá as boas(?) vindas a quem chega ao aeroporto de Wellington, capital da Nova Zelândia. Nessa cidade é onde mais se explora o sucesso das duas trilogias de Peter Jackson. Há esculturas nas ruas, milhares de gadgets nas lojas, visitas ao Weta Studios e à Weta Cave (réplica cenográfica), e excursões à “Terra Média”, conjunto de locações campestres dos filmes. Mesmo o mastodôntico Museu Te Papa, dedicado às ciências neozelandesas e às artes maoris, tem sua museografia contaminada pelo gigantismo dessa estética blockbuster. De resto, Wellington é uma pequena metrópole de caráter provinciano, minimizada pela pujança econômica e arquitetônica de Auckland.

O fumacê de ROTORUA            

Rotorua

No centro da Ilha Norte, Rotorua é o posto de resistência da cultura originária maori na Nova Zelândia. É também uma vasta área geotermal, cuja atividade vulcânica subterrânea irrompe na superfície sob a forma de gêiseres, piscinas de água e lama fervente, pontos emissores de fumaça espalhados por toda a cidade. Esta foto da aldeia maori de Whakarewarewa ilustra bem o que se vê por lá. Para onde quer que se olhe há uma espiral de fumaça subindo pelo ar e exalando um característico cheiro de enxofre (traduzindo: ovo podre). Pequenos lagos, poços de quintal e até bueiros de rua emitem sua fumacinha dia e noite. A água, naturalmente quente, é utilizada para aquecimento, banhos e cozimento. O calor que vem da terra, diz-se, mantém acesa a energia dos maoris, que não se deixam engolir pela cultura europeia dominante.

A diversidade mora em AUCKLAND

Auckland

Ampla oferta cultural, arrojo arquitetônico e muito savoir vivre animam a maior cidade neo-zelandesa. Preferi, contudo, destacar aqui o seu aspecto de ponto de encontro de etnias e culturas da Polinésia. Por toda a Austrália e Nova Zelândia, é maciça a presença da população, da gastronomia e dos hábitos das pequenas ilhas do Pacífico. Mas em Auckland isso chega ao nível da celebração. Tive a oportunidade de visitar a Feira Pasifik, que se realiza uma vez por ano num grande parque da cidade. Ali é possível fazer um “tour” fascinante por comidas, músicas, danças, roupas, artesanato e sobretudo rostos e corpos típicos das ilhas que se lê nas placas desta foto. Uma amostra eloquente da diversidade do mundo.

Aqui, a publicação original no Balaio de Notícias