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Foto feita na pré-estreia do filme, no Cine Joia

No céu da MPB brilham nomes como Roberto Carlos, Cazuza e Ivete Sangalo. Enquanto isso, numa espécie de limbo circulam pessoas como Carlos Evanney, Pepê Moraes e Edson Júnior. São os covers daqueles astros, ou Os Outros, como sintetiza o título do novo documentário de Sandra Werneck. Covers existem muitos, mas esses três dedicam a vida (e ganham a vida também) a imitar seus originais, mantendo com estes uma relação que pode tocar a esfera do misticismo.

Sandra tem um olhar perspicaz e carinhoso para com seus personagens reais, o que infelizmente exercita pouco (A Guerra dos Meninos, Meninas). Os Outros intercala a observação do cotidiano e das performances desses três artistas para chegar à essência de um tipo de culto. Um culto de aparências, claro: é preciso parecer-se com o original, mover-se e apresentar-se como ele. Mas também um culto de supostas forças superiores que forjam aquelas dualidades.

Carlos Evanney, por exemplo, acredita ter recebido de Deus a missão de estar nos lugares onde o Rei não consegue estar. Ele tem sua réplica humilde dos cruzeiros musicais de Roberto e até hoje guarda embalsamada a fatia de bolo que lhe coube num aniversário do ídolo há mais de 12 anos. Pepê Moraes invoca o espírito de Cazuza num ritual sincrético antes de iniciar cada performance. Por sua vez, a transformista Scarleth Sangalo (Edson Júnior) projeta em Ivete a plena realização de sua persona feminina.

A deliciosa seleção de momentos feita por Sandra Werneck sublinha o que há de comum e o que diferencia esses profissionais da cópia. Cada um fica com sua personalidade: o tímido e emocional Evanney, o descolado e familiar Pepê, e a carismática e esfuziante Scarleth. Para além do que possa haver de pitoresco ou mesmo patético nessas figuras, temos acesso também à dimensão mais íntima de suas rotinas, famílias e sobrevivência (um pouco menos de Evanney). Ou seja, temos um retrato de gente de verdade, não apenas de uma curiosidade da cultura de massa. Ao mesmo tempo, nos faz pensar sobre o status que as réplicas alcançaram na nossa chamada era do simulacro.