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Aos 65 anos de idade e 46 de cinema, Murilo Salles ganha sua primeira retrospectiva a partir de hoje (terça) na Caixa Cultural-RJ. “O Cinema de Murilo Salles – O Brasil em Cada Plano” abre às 18h30 com um curiosíssimo programa de curtas e o lançamento do catálogo – também o primeiro sobre o cinema do Murilo. É mais do que tardio para um realizador que soube imprimir marca tão própria.

006A mim particularmente o que mais interessa em sua filmografia é o olhar oblíquo que ele lança às convenções sociais e às narrativas dominantes no cinema brasileiro. Mesmo sem ter perfil de contestador nem fazer alvoroço na mídia, Murilo tem conseguido sacudir com seus filmes o status quo do nosso cinema. Em meados da década de 1980, Nunca Fomos Tão Felizes trocou as reações ressentidas com a ditadura militar pelo caminho da reflexão sobre o vácuo deixado para as gerações futuras. Como numa sequência daquele raciocínio, as crianças de Como Nascem os Anjos agiam não movidas por uma pauta sociológica engomada, mas por impulsos naturais do seu modo de vida: o acaso, o equívoco, o narcisismo, a sexualidade precoce, a mitificação da beleza importada, o mimetismo da televisão. Um filme como outro espanavam velhas armaduras dramatúrgicas e abriam espaço para as incompletudes e ambiguidades da vida moderna. Ele continuou na mesma toada através de filmes como Seja o que Deus Quiser!, Nome Próprio e O Fim e os Meios, sempre invertendo sinais e deslocando perspectivas sobre os temas e a representação de personagens característicos da atualidade brasileira.

nome proprioAprecio também a sua relação muito próxima com as artes visuais, que se manifesta claramente nos seus documentários sobre arte, mas também em filigrana nos filmes de ficção. Nestes, a “conversa” entre espaços, luz e cores deixa transparecer as influências da arte pop, da arte contemporânea, das videoinstalações, etc. Sobre seus documentários detenho-me num texto que escrevi para o catálogo da mostra.

Editei o catálogo juntamente com o Murilo, ele que se dedicou com afinco à preparação da mostra, em conjunto com a organizadora e curadora Mariana Bezerra e o produtor executivo Breno Lira Gomes. O projeto gráfico, assim como toda a identidade visual do evento, é de Guilherme Lopes Moura.

O catálogo traz sete textos inéditos sobre diferentes vetores que atravessam a obra do Murilo. O historiador Maurício Lissovsky analisa os espaços (físicos e virtuais) em diversos filmes. O crítico José Geraldo Couto examina como o sexo permeia as relações de afeto e de poder entre seus personagens. Outro crítico, Marcelo Miranda, joga luz sobre o papel da violência como gesto criador nos três primeiros filmes de ficção de Murilo. Cleber Eduardo, mais um crítico convidado, aborda os deslocamentos físicos e existenciais de personagens jovens na filmografia do diretor. No meu artigo, trato do documentarismo como lastro conceitual de certos temas que Murilo desenvolve em seus filmes de ficção. O crítico de arte Paulo Sergio Duarte enfoca especificamente os documentários artísticos, no que ele chama de “a arte de filmar a arte”. O cineasta Lírio Ferreira, por sua vez, evoca a amizade entre os dois e a experiência de parceria no seu Árido Movie.

O volume de 202 páginas traz também textos de Murilo Salles, incluindo comentários sobre seus filmes-faróis, além de informações e resenhas sobre os cinco curtas e os 12 longas incluídos na mostra. A programação abrange também três exemplos da expertise muriliana na direção de fotografia – Lição de Amor, de Eduardo Escorel, Árido Movie e o curta Carro de Bois, de Humberto Mauro.

Dois debates estão programados. No dia 21, às 19h10, Murilo se junta a Walter Carvalho e Hernani Heffner para debater a fotografia no cinema brasileiro. No dia 28, às 19h, ele conversa sobre o seu cinema comigo e Maurício Lissovsky. Para o dia 23, às 14h, está prevista uma masterclass do cineasta, com inscrições feitas pelo e-mail masterclass@mostramurilosalles.com.br.

Veja a programação e outras informações no site da mostra.