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Em seu ritmo impassível e minimalista, De Longe te Observo é um estudo de muitas camadas. Um estudo de personagens, antes de mais nada. Armando (Alfredo Castro, de Tony Manero e O Clube), protético maduro e solitário que paga a rapazes para encontros sexuais sem toque nem interação, e Elder (Luis Silva, novato excelente), garoto violento e homofóbico que se vira nas ruas de Caracas, são figuras contrastantes em quase tudo, exceto no abandono paterno que está na origem de suas respectivas carências. O vínculo entre eles é tudo menos romântico. É algo complexo que passa pela relação pai-filho, pela obsessão fetichista, pela gratidão e pela exploração recíproca. Os limites entre cada um desses vetores é coisa difusa que fica para nós discernirmos.

Nas entrelinhas, o filme faz uma observação do estado atual da capital venezuelana, onde a crise econômica e de abastecimento acirra as desigualdades e transforma as ruas num laboratório de gambiarras, contravenções e pequenos crimes. A homofobia também conta como um dado social relevante, tal como acontecia em Pelo Malo, outro recente sucesso do cinema da Venezuela.

Ao mesmo tempo, o longa de estreia na ficção do documentarista Lorenzo Vigas (Leão de Ouro em Veneza, feito inédito para o cinema de seu país) é um estudo das potencialidades do foco da câmera para sintonizar o espectador com a proposta de um filme. O uso recorrente da pequena distância focal dissolve o fundo das cenas e nos obriga a “colar” no personagem que observa ou é observado. Assim, Vigas e o fotógrafo Sergio Armstrong, frequente nos filmes de Pablo Larraín, selecionam o objeto do nosso olhar, fazendo-nos mais que tudo observadores, e ainda enfatizam o isolamento fundamental de Armando.

O filme é riquíssimo em sugestões e surpresas sutis por trás de sua forma modesta e seu estilo seco. A câmera observacional nos coloca tão próximos dos personagens quanto preserva seus enigmas essenciais.