Açúcar e civismo em doses gigantes

Atenção: esta resenha contém política e spoilers!

O Bom Gigante Amigo não é filme para diabéticos. O excesso de açúcar, combinado com um civismo predatório, esfarela a magia dessa nova fábula de Spielberg. As intenções de reeditar E.T. são evidentes. Em lugar de um serzinho do espaço abrigar-se na casa de um menino, temos um serzão que sequestra a menina órfã de Londres e a leva para sua terra, onde vai se revelar tão ou mais “infantil” do que ela. Não faltam os voos mágicos (aqui dissimulados nas corridas do gigante) e os dedos se tocando para selar a amizade entre as duas espécies.

A técnica é quase sempre encantadora ao explorar as três escalas: humana, do BFG e dos gigantões. Tudo flui com pertinência, especialmente nas tomadas mais próximas e nas de conjunto, já que nos planos médios as diferenças de tamanho às vezes não ficam tão claras. Quanto à estética, Spielberg não nega fogo, ainda que invista além da conta nas bolotas de sonhos luminosos que dominam a segunda metade do filme. As animações da preparação do sonho da rainha me agradaram em particular.

O que falta a The BFG é algum carisma especial. A menina Sophie, caracterizada como uma inglesinha adulta em miniatura, é chata como uma inglesinha adulta em miniatura. Sua química com o gigante de fala torta e dieta vegetariana nunca atinge o ponto de fusão nem de ebulição. Em contrapartida, sobram obviedades no lado vilanesco da história, representado pelos gigantões carnívoros que fazem bullying com BFG e caçam a “deliciosa” Sophie como se ela fosse algo mais que um petisco individual.

Para combater esses horrorosos devoradores de carne (spoiler!), só mesmo convocando as tropas da rainha da Inglaterra. Isso dá margem a uma sitcom razoavelmente engraçada nos salões de Buckingham, mas não disfarça a idiotice da situação nem a ideia infeliz de mobilizar uma incursão militar à Terra dos Gigantes. Estamos de volta à lógica dos ataques imperialistas, com a agravante de (mais spoiler!) vilões lançados de helicóptero no mar, exatamente como acontecia com os mortos pela ditadura de Pinochet – e “O Botão de Pérola” está em cartaz para ilustrar. É um desfecho sombrio e deseducativo para um filme que, embora fiel ao livro original de Ronald Dahl (1982), tropeça muito no caminho para o gosto popular contemporâneo.

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