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Glauber Rocha é o cineasta brasileiro sobre quem mais se escreveu, no Brasil e no exterior. Há biografia, análises da obra sob diversos prismas, coletâneas de ensaios e de correspondência, livros sobre momentos específicos de sua carreira (como O Leão de Veneza), sem contar os vários escritos pelo próprio. Ainda assim, é preciso reservar um lugar na estante para o recém-lançado Glauber Rocha – Cinema, estética e revolução (Paco Editorial), do crítico de cinema e professor de Filosofia Humberto Pereira da Silva.

Conciso mas abrangente, o livro de Humberto reconta vida e obra de Glauber de maneira condensada e cronológica, servindo portanto como uma ótima fonte de iniciação nos misteres do artista. Já na apresentação, o autor explicita sua intenção de abordar “as motivações de base” e os caminhos trilhados por Glauber em sua trajetória artística, política e de estrategista do cinema brasileiro.

Embora comandado pela linha biográfica, o texto não se furta a deter-se sobre a estrutura e o sentido profundo dos filmes, bem como sobre episódios cruciais da relação de Glauber com a vida política. Os choques dialéticos com a esquerda são resenhados no bojo da reflexão glauberiana sobre os destinos do Terceiro Mundo. Um exemplo é a famosa defesa dos militares como libertadores do subdesenvolvimento e portadores da liberdade nos últimos tempos da ditadura, que ganha no livro uma contextualização pormenorizada e lúcida. Humberto de fato tenta compreender o gesto sem escamotear sua inoportunidade nem suas razões psicológicas. “No confronto com as esquerdas, o artista vulcânico e entusiasmado dos primórdios do Cinema Novo foi transfigurado num personagem trágico e sombrio”, resume na página 124.

Filme a filme, gesto a gesto, polêmica após polêmica, Glauber é revisto com olhar ao mesmo tempo compreensivo e crítico. A indistinção entre vida e obra, como praticada pelo cineasta, repercute no livro. Nesse sentido, destacam-se os miniestudos de Humberto a respeito de filmes menos dissecados por aí, como Di-Glauber e as obras do exílio: Cabeças Cortadas, O Leão de Sete Cabeças e Claro. Da mesma forma, conceitos como “estética da fome” e “zero ideológico” são explicados de modo claro e direto.

Uma revisão mais acurada teria detectado equívocos na grafia de nomes próprios e numa informação pontual como mencionar o histórico Cinema Guarani de Salvador como Cine Glória. Descontadas, ainda, uma ou outra elaboração de ideias ligeiramente confusa, esse pequeno livro chega como uma grande contribuição de referência e introdução ao tumultuoso e radiante universo de Glauber Rocha.