Dahlia e Ozon

Sobre os filmes TUNGSTÊNIO e O AMANTE DUPLO

A informação de que TUNGSTÊNIO se baseia numa HQ (de Marcello Quintanilha) deveria vir no início do filme para sintonizar o espectador com a proposta estética de Heitor Dhalia. É isso o que justifica o abuso de angulações estapafúrdias, a aceleração contínua da ação e das falas, assim como o frequente congelamento dos movimentos para abrir espaço à narração irônica e “participante” de Milhem Cortaz.

A origem nos quadrinhos também explica a artificialidade quase insustentável das situações em que se metem os quatro personagens principais: um jovem traficante (Wesley Guimarães), um sargento reformado e psicótico (José Dumont), um policial ultraviolento (Fabrício Boliveira) e sua esposa exausta das agruras da vida conjugal (a modelo Samira Carvalho). A partir do flagrante de pescadores usando bombas ilegais próximo ao forte de Monte Serrat, em Salvador, eles vão viver algumas horas de tensão e descobrir certas coisas uns dos outros.

Na verdade, o filme se limita a uma enfiada de discussões exasperadas e pontuadas por atos de violência. O roteiro – com participação de Marçal Aquino (corroteirista de O Cheiro do Ralo), Fernando Bonassi e George Moura – vale-se ora de uma vertiginosa simultaneidade, ora de alongamentos entediantes quando o ritmo parece se estagnar na mera falação. O lado bom disso é que o elenco se esbalda num baianês quase caricato, que diverte e lembra “Ó Paí Ó”. As cores e os contrastes são quentes como o verão soteropolitano.

Nos moldes dos policiais tarantínicos, TUNGSTÊNIO tem seu ponto de ebulição na confluência do verbal e do físico. A HQ de Quintanilha é elogiadíssima, mas o filme corre o risco costumeiro das adaptações do gênero: o de não resistir à explicitude “material” do cinema.



François Ozon adora fazer pequenos atrevimentos parecerem grandes ousadias. O AMANTE DUPLO lida com uma moça desequilibrada por carência afetiva que se apaixona pelo psiquiatra e acaba se envolvendo também com o irmão gêmeo dele. Tudo caminha para se esclarecer (ou obscurecer) como fruto de fantasias sexuais e distúrbios genéticos muito mal explicados (os tais gêmeos canibais).

Ozon às vezes gosta de flertar com a vulgaridade, ainda que não dispense a elegância. Nesse filme baseado livremente no romance The Live of Twins, da americana Joyce Carol Oates, ele parece ora brincar com o suspense mão-pesada de Brian De Palma, ora roçar o sensacionalismo barato de 50 Tons de Cinza. A ideia dos duplos é explorada à exaustão, mas o que fica é uma impressão única e misógina: a visão da mulher como animal potencialmente histérico.

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