Haneke e Denzel

Comento a seguir os filmes HAPPY END, de Michael Haneke, e ROMAN J. ISRAEL, ESQ., com Denzel Washington, que só foram lançados no Brasil em plataformas online

Michael Haneke é um cineasta fiel a sua localização no GPS do cinema, qual seja a esquina sombria onde a perversidade e a compaixão se encontram. Em seus filmes, o Mal com frequência se confunde com o Bem, e a miséria humana fica exposta em toda a sua atrocidade. HAPPY END, com seu título obviamente irônico, é mais um capítulo dessa Bíblia amarga.

Um capítulo que, diga-se logo, não acrescenta nada ao conjunto da obra. Na verdade, Haneke parece estar apenas parodiando ingredientes diversos de seus trabalhos anteriores. A crueldade infantil de A Fita Branca, a dívida europeia para com os imigrantes de Caché, a eutanásia de Amour. Desse último, temos o próprio personagem de Jean-Louis Trintignant um pouco mais idoso e, agora, interessado em apressar a sua própria morte.

Voltam à cena os mesmos integrantes de uma certa família Laurent que atravessa – apenas nominalmente – vários filmes do diretor. Dessa vez, pertencem à burguesia da construção civil em Calais, França. Em alguns poucos dias, tudo parece desmoronar para eles, a começar por um literal desmoronamento numa das obras da empresa. Seguem-se uma causa trabalhista que termina em conflito pessoal, um envenenamento, as tentativas de suicídio do patriarca, um adultério descoberto, uma menina depressiva dada a iniciativas mórbidas.

Os assuntos se acumulam: vida alternativa das conexões virtuais, desagregação familiar, humilhações de classe social… Mesmo que tudo gire em torno dos Laurent, não há liga entre elementos tão díspares. Haneke trafega entre um e outro “case” como quem folheia prontuários de uma clínica psiquiátrica, sem se deter nem se aprofundar em nenhum deles.

HAPPY END se vale da secura, da distância calculada e da rigidez glacial tipicamente hanekeanas, valorizadas pelas performances irrepreensíveis do elenco. A narrativa não é destituída de surpresas que nos fazem aguçar a curiosidade. Mas não demoramos a perceber que tudo se limita a um mero painel de insalubridades domésticas, bem longe daquilo que o cineasta já criou de melhor.



Denzel Washington talvez não seja capaz de dar conta da tortuosa trajetória do personagem-título de ROMAN J. ISRAEL, ESQ., mas não é nada menos que fascinante vê-lo preencher cada fração de segundo do filme com o absolutamente inesperado. Arrastando o corpanzil num andar pesado, cabelo late black power, ele faz um advogado formado na ética da luta pelos direitos civis. O afastamento súbito do seu sócio num pequeno escritório de defesa criminal de gente pobre o deixa à deriva. Ele sempre esteve na retaguarda redigindo os argumentos que o sócio brandia nos tribunais e colhia os méritos. Esquentado e inábil no front direto, sem dinheiro para se manter, Roman se vê numa encruzilhada e põe em xeque seu talento e sua dignidade.

Denzel (indicado ao Oscar por esse desempenho) trabalha em detalhes o misto de necessidade e orgulho que leva Roman a tomar atitudes drásticas. A direção de Dan Gilroy contribui ao colocar o ritmo e os recursos narrativos a serviço das sensações contraditórias do personagem. Assim é que diversas sequências são encenadas e montadas conforme os estados de surpresa, retraimento, imprudência e medo. Essa é uma virtude que pode passar desapercebida, mas que garante subliminarmente a adesão do espectador.

E olhe que não é fácil aderir a um filme quase todo baseado em diálogos não ilustrativos, mas sim repletos de jargão jurídico e das reflexões cifradas de Roman. As mudanças vividas pelo personagem, do engajamento ativista à corrupção oportunista, podem soar um tanto estapafúrdias, levando o filme a alguns lampejos de comédia. É preciso compreender a lógica interna de uma mente que subitamente perde suas referências e se desarranja inapelavelmente.

Os hits de funk e soul dos anos 1970 ecoam como uma memória das raízes de Roman e comentam sua deterioração na era das corporações e do Direito como puro negócio.

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