Ensaio de razão cínica

O ORGULHO

Existe uma corrente no cinema francês que procura conciliar entretenimento com discussão de temas sociais em voga: acessibilidade, racismo, feminismo, bullying, etc. O ORGULHO pertence a essa vertente, com o acréscimo de ser mais um filme sobre a relação professor-aluno. O choque entre a estudante de Direito de origem argelina (a atriz e cantora Camélia Jordana, Prêmio César de Melhor Atriz Revelação 2018) e o professor empanturrado de racismo e conservadorismo (Daniel Auteuil) se dá já na primeira sequência.

O incidente é a gota d’água para levar o professor ao conselho disciplinar da faculdade. Para limpar sua barra e da própria instituição, ele será instado a orientar a moça num concurso universitário de retórica. O plot, bastante frágil, serve para estabelecer um duelo de vontades e provocações entre os dois, na medida em que eles aceitam o jogo. Passam, então, a se relacionar segundo os estratagemas da Dialética Erística de Schoppenhauer, com os quais supostamente se vence qualquer discussão, mesmo se estando errado. É a sutil diferença entre falar a verdade e parecer estar com a razão.

Com esse sofisticado subtexto filosófico, o filme almeja ser um pouco mais contraditório do que a média de seu gênero. O diretor Yvan Attal e seus três corroteiristas procuram um lugar intermediário entre o discurso bem comportado do politicamente correto e o preconceito escancarado. Acabam fazendo o elogio de uma espécie de razão cínica, um tanto oportunista, em que os fins compensam os meios e o pessoal se sobrepõe ao coletivo. O mesmo tipo de raciocínio parece prevalecer entre os franco-árabes, sempre dispostos a reproduzir os estereótipos que os atingem.

Em ambiente contaminado pelo vírus da nova direita, inclusive no meio acadêmico, toda complacência pode ser fatal. Nesse sentido, O ORGULHO é um filme que se arrisca a ser mal compreendido. Aliás, arrisca-se não só por isso. O apelo comercial responde por lances de comédia deslocada (as cenas do metrô, por exemplo) e uma falha fatal na descrição do processo por que passa a aluna. Ela progride da inexperiência total à performance brilhante por elipses, como em passes de mágica, sem que nada nos faça dimensionar a evolução. E o arranjo final soa mais conciliador do que o contexto sugeria.

O ORGULHO talvez não seja um filme interessado em falar a verdade, mas somente em parecer ter razão. E em fazer merchandising (pago ou não) do Uber.

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