O embrutecimento de uma nação

INFILTRADO NA KLAN

É preciso um bocado de suspensão da descrença para engolir a forma como Spike Lee narra as aventuras de Ron Stallworth e Flip Zimmermann em INFILTRADO NA KLAN. O poder de convencimento de Ron parece infinito para que a polícia de Colorado Springs o aceite tão facilmente como primeiro policial negro da cidade e em pouquíssimo tempo o promova a postos de confiança. A líder estudantil negra Patrice Dumas o acolhe intimamente a partir de uma simples troca de palavras na rua. Os cabeças da Ku Klux Klan local confiam nele ao primeiro telefonema e depois ainda o alçam a um posto de liderança na “Organização”.

Para os encontros presenciais, Ron (John David Washington, filho de Denzel Washington) envia o colega branco Flip (Adam Driver), que, como judeu, representa outro alvo do ódio da KKK. Flip, fingindo ser o Ron dos telefonemas, convive largamente com os supremacistas sem que estes nunca percebam que ele está plugado para a escuta policial.

Enfim, BlacKkKlansman deve ser visto mais como uma comédia, com toques de blackexploitation (gênero em vigor nos anos 1970, que buscava empoderar os negros em filmes de ação e comédia) do que como uma dramatização verossímil dos fatos vividos por Ron Stallworth e contados no seu livro Black Klansman. Spike Lee aposta nesse misto de filme policial descabelado e libelo anti-racista para ganhar a adesão da plateia. E ganha porque esbanja convicção em cada cena. Leva a história com o ritmo instigante e o gume provocativo que lhe são peculiares.

As repetidas ofensas raciais na boca dos personagens, sejam sinceras ou estrategicamente fingidas, criam um clima de indignação pelo excesso. Excesso que também está nos personagens caricaturais, sobretudo nos idiotas redneck da Klan e nos policiais racistas. Em lugar da sutileza, Lee trabalha com as armas do enfrentamento.

Enquanto encena aqueles fatos ocorridos em 1979, o diretor mira dois pontos temporais distintos: no passado, a Hollywood racista que pintou os negros como estupradores selvagens em O Nascimento de uma Nação e como escravos dóceis em …E o Vento Levou; no futuro, o acirramento do ódio racial que levou ao governo Trump e dele vem se beneficiando.

O filme começa e termina com explosões de intolerância. Na abertura, vemos a gravação do discurso de um segregacionista, interpretado por Alec Baldwin, contra a “conspiração judaica internacional” que estaria promovendo a integração racial. A argumentação repugnante desse personagem ficcional é constantemente sabotada pelas interrupções da gravação e pelas imagens projetadas sobre seu rosto. Já no epílogo documental, irrompem as cenas dos incidentes em Charlottesville, 2017, quando manifestantes neonazistas e antifascistas se confrontaram e um carro atropelou dezenas de antifascistas, causando inclusive a morte de uma mulher. Donald Trump é visto no pronunciamento em que tentou eximir os racistas de responsabilidade.

Através de Ron e Flip, INFLITRADO NA KLAN coloca o racismo contra negros na mesma faixa do antissemitismo, o que se justifica historicamente nos EUA. Na junção dos dois como um mesmo personagem para os supremacistas, fica patente sua diferença frente aos americanos “puros” que se organizam na extrema direita, ontem como hoje.

Spike Lee cria algumas áreas de ambiguidade na representação dos policiais. A princípio, Ron é infiltrado entre os militantes negros, numa investigação que acaba comprometida não só pela simpatia do policial pela causa depois de ouvir um discurso do ativista Stokely Carmichael, mas também pelo deliberado abandono desse plot no roteiro. À medida que o filme avança e Ron/Flip se envolvem com a Klan, os policiais racistas somem de cena, com a exceção de uma figura mais caricata, que será exemplarmente punida ao final. Ou seja, o rigor inicial da polícia contra os partidários dos direitos civis acaba dando lugar a uma missão contra a KKK e, por fim, a um arranjo para estancar a sangria. O fato de muitos membros da Klan pertencerem também às Forças Armadas americanas – uma das descobertas de Ron Stallworth – por alguma razão não mereceu a atenção de Lee.

O que não falta, como de regra nos filmes do cineasta, é uma vistosa iconografia do poder negro. A bela Patrice (Laura Harrier), espécie de versão mais jovem de Angela Davis, é uma das divas ebúrneas que Lee nunca deixa de escalar. Durante a fala contagiante de Carmichael, o filme nos presenteia com belíssimos rostos na audiência, destacados da realidade como efígies. Mais adiante, faz ressurgir o venerando Harry Belafonte (foto à direita), no pedestal dos seus 91 anos de engajamento, no papel de um velho ativista que reconta a uma plateia de estudantes o linchamento (real) de um homem negro em 1916.

O próprio Spike Lee, aos 61 anos, mantém a musculatura criativa em forma, mas também procura falar um pouco como Belafonte a seus ouvintes. Aqui ele conta uma história com algo de fantasioso, mas é como se os acontecimentos dos anos 1970 se infiltrassem em nosso presente para mostrar do que se trata, afinal. Nos EUA como no Brasil, o horror da extrema direita não é mais uma ameaça. É uma realidade que põe vidas em risco e nega aos diferentes o simples direito de existir.

4 comentários sobre “O embrutecimento de uma nação

  1. Crítica excelente. Coincide com a minha visão do filme do Spike Lee, mas isso não é o mais importante, e sim a clareza com que você expõe os pontos fortes e fracos de BlackKklansman.

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