Serial killer cinematográfico

A CASA QUE JACK CONSTRUIU

Tem muita gente vociferando por aí contra A CASA QUE JACK CONSTRUIU. Eu até compreendo, uma vez que Lars Von Trier volta a radicalizar no seu desafio à moral do espectador. Mas dessa vez ele me pareceu a salvo das patuscadas de Ninfomaníaca e mesmo do grafismo explícito de Anticristo. As ações do serial killer vivido assustadoramente por Matt Dillon, embora tenham desfechos sangrentos, incidem mais no suspense psicológico do que no choque da visualização.

Há muitas razões para se ver em Jack um alter ego do diretor, com sua perversidade inflamatória. Ele explicita esse vínculo numa cena pontuada por imagens de seus filmes e o seguinte comentário na boca de Jack: “Para algumas pessoas, as atrocidades que cometemos em nossa ficção são desejos íntimos que não podemos realizar em nossa civilização controlada, e então as expressamos através da arte. Eu não concordo. Acredito que o Céu e o Inferno são a mesma coisa”.

Von Trier tem predileção por essas dicotomias desconcertantes. A luz é preta quando vista no negativo de uma foto, diz Jack. A mesma árvore sob a qual Goethe escreveu seu famoso poema Canção Noturna do Andarilho serviu de forca para prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald. Contradições como essas perpassam a argumentação de Jack em sua conversa com o poeta romano Virgílio (Bruno Ganz) numa espécie de juízo final que corre em paralelo por todo o filme. O diálogo é recurso narrativo semelhante ao de Charlotte Gainsbourg e Stellan Skarsgård em Ninfomaníaca, só que agora no campo do sobrenatural e majoritariamente em off.

Jack mata mulheres como Lars as faz sofrer nos filmes. Há, claro, componentes de sadismo e misoginia nesse complexo de serial killer cinematográfico. No entanto, é tudo tão categórico e carregado de terceiras intenções que se pode perfeitamente abrir mão do realismo normativo e encarar o filme como um ensaio sobre a potência artística do Mal. Jack, ou Mr. Sofistication, como se dá a conhecer publicamente, é um arquiteto frustrado que considera o assassinato e a decomposição da matéria como obras de arte. Ele manipula e fotografa “seus” cadáveres com requintes de estética macabra no interior de um frigorífico. Vê a si mesmo como um tigre que tem por natureza atacar os cordeiros. Suas obsessões por ordem e limpeza ajuntam um tempero de humor à corrupção do personagem.

As digressões em torno da crueldade da Arte e da Natureza fazem uma aproximação ao cinema de Peter Greenaway, algo que me parecia improvável até aqui. Ambos os diretores possuem um fascínio pela dimensão intelectual dos vícios e da malignidade, sendo que certos tableaux visuais desse novo Von Trier se aparentam mais que nunca aos de Greenaway.

As referências cruzam diversos campos, do erudito ao pop. Há a admiração de Jack por Glenn Gould, pianista famoso tanto pela qualidade das execuções quanto pelas excentricidades pessoais. Jack ilustra suas doenças e obsessões desfiando cartões escritos à moda de Bob Dylan em Don’t Look Back.

O epílogo, ou catábase (descida ao inferno), parece uma autocondenação do cineasta pelos seus inumeráveis pecados. Lars Von Trier tem plena consciência de sua imoralidade fundamental, segundo o ponto de vista regulamentar de uma sociedade do Bem e do bom-gosto. Mas a doença desse criador tem a virtude de ser questionadora como poucas mente sãs conseguem ser. A CASA QUE JACK CONSTRUIU tira o espectador da zona de conforto e o faz indagar-se sobre os padrões de consumo da arte nossa de cada dia.

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