Jornada de um pai

MEU QUERIDO FILHO


Produzido mais uma vez pelos irmãos Dardenne, o diretor tunisiano Mohamed Ben Attia (A Amante) volta a colocar laços familiares em xeque numa história que reflete impasses do seu país. Numa cena de MEU QUERIDO FILHO, o personagem do pai atravessa uma manifestação contra o terrorismo em Túnis. O horror ao Estado Islâmico é um sentimento que se alastrou da Síria e do Iraque para os países do Magreb. Muitos tunisianos lutam e treinam com grupos extremistas na Líbia e mesmo na Síria.

O drama de Riadh, o pai, é inicialmente o de compreender o que acontece com o filho. Crises de enxaqueca, desmaios e depressão atingem Sami. O rapaz tenta se desvencilhar do controle e da proteção obsessiva do pai até que um dia, na véspera do vestibular, simplesmente desaparece, deixando um bilhete em que dizia ter partido para a Síria. O menino criado para ser um homem pacato como o pai parece ter abraçado o terrorismo.

Riadh parte, então, numa viagem afoita rumo à Síria, via Istambul, empenhado em encontrar o filho. No caminho, algumas reflexões pessoais e um episódio mal explicado no roteiro vão determinar uma mudança de rumo na consciência do pai.

Além de descortinar a realidade cruel das famílias partidas pela decisão dos filhos de se juntarem aos jihadistas (leia mais sobre isso nesta matéria de Léa Maria Aarão Reis na Carta Maior), MEU QUERIDO FILHO faz um estudo penetrante do personagem de Riadh. Por mais duro que seja, aquele pai aprende a assimilar a alteridade do seu rebento. O que acontece com Sami é uma versão extremada do filho que não segue o plano de vida traçado por seus pais.

Ben Attia adota um eixo narrativo e o segue à risca. Apenas uma cena se passa sem a presença de Riadh. O belo arco dramático desse pai o leva da dedicação amorosa ao entendimento de que, ao fim e ao cabo, cada ser humano é uma peça única – e fundamentalmente solitária.

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