A escritora por trás do escritor

A ESPOSA

A temporada de filmes sobre escritoras cujo talento é roubado pelos maridos inclui Colette e A ESPOSA. Se a verídica Colette (1873–1954) teve a sorte de se desvencilhar de Henry Gauthier-Villars a tempo de se impor como grande autora e candidata ao Nobel de Literatura, a fictícia Joan Castleman (Glenn Close) permaneceu à sombra do marido Joseph Castleman (Jonathan Pryce), ele sim, premiado com o Nobel em 1992.

É justamente durante o “circo” midiático e institucional do Nobel, em Estocolmo, que os ressentimentos de Joan vêm à tona de maneira irreprimível. O cerco de um biógrafo recusado e as tensões com o filho, que também tenta iniciar uma carreira literária, precipitam a irrupção de Joan. Ela não suporta mais fazer o papel clichê de esposa, cuja profissão é ser “o amor da vida” do autor reverenciado. Ainda nos anos 1990, as escritoras mulheres tinham seu caminho polvilhado de pedras.

O roteiro de Jane Anderson, baseado no romance de Meg Wolitzer, dispara algumas questões interessantes que extrapolam uma leitura feminista. Os personagens acumulam traços positivos e negativos pela forma como se adaptaram a circunstâncias perversas. Joseph e Joan mantiveram um “contrato” vil durante quase 30 anos de união, sustentado por um laço amoroso, muito recalque e nenhum questionamento. O Nobel chega como uma gota d’água para a esposa, que decide rasgar o “contrato” de maneira espetacular. Pelos pecados de parte a parte, ambos serão punidos.

É curioso também que um diretor sueco, Björn Runge, retrate com cores ácidas os rituais de legitimação do Nobel. Não com a virulência de The Square quanto à arte contemporânea, mas ainda assim uma visão crítica da egolatria em torno do prêmio.

A  estrutura de narrativa em dois tempos, mostrando os começos da relação do casal e o episódio de 1992, apesar de bastante convencional, nos situa com eficiência no cerne do assunto e produz ressonâncias significativas entre as duas épocas.

A sólida interpretação de Glenn Close vem sendo festejada com um destaque talvez excessivo perante a excelência equivalente de Jonathan Pryce. Os duelos e as precárias reconciliações entre Joseph e Joan são o ímã que nos mantém aferrados a cada minuto de A ESPOSA.

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