Na disputa pelo Oscar do real

Já assisti a três dos cinco longas-metragens que concorrem hoje ao Oscar de melhor documentário. Nenhum me pareceu extraordinário, mas gostei particularmente de MINDING THE GAP, que comento abaixo, junto a RBG e HALE COUNTY THIS MORNING, THIS EVENING.

Tornar-se homem

MINDING THE GAP (“tendo cuidado com o vão”, em tradução livre) traz à mente Boyhood, de Richard Linklater, numa versão puramente documental. É um romance de formação de três jovens na cidade de Rockford, Illinois, unidos pelo skatismo e por um background de violência doméstica.

Bing Liu, o diretor, cinegrafista e montador do filme, é um deles. Imigrante da China, havia alguns anos ele costumava filmar os amigos Zack e Kiere no skate e fora dele. Depois de se instalar em Chicago, onde é cinegrafista profissional, ele retornou a Rockford para mergulhar mais fundo na história dos três.

Resultou uma crônica ora divertida, ora dolorosa, do que seja tornar-se homem numa cidade marcada pelo alto índice de violência doméstica, desemprego e ótimos espaços para rolar o skate.

No total, o filme cobre 12 anos na vida do trio, mas o teor dramático mais evidente está nos últimos dois ou três anos, quando Zack Mulligan, o branco, resolve casar-se, tem um filho e desenvolve uma relação abusiva com a mulher. Kiere Johnson, o afro-americano, encara pela primeira vez a necessidade de um emprego. Bing, o asiático, faz um penoso acerto de contas com sua mãe a respeito da violência imposta à família pelo padrasto.

Mediante o acesso íntimo aos companheiros de longa data, Bing Liu fez um retrato penetrante de uma geração meio perdida entre a herança familiar conturbada e a falta de perspectivas sólidas de futuro. Skate rima com escape, indício do escapismo que o esporte representa para aqueles moleques sufocados pelo racismo, as exigências de uma sociedade obcecada pelo trabalho e as responsabilidades da idade adulta.

Bing toca o filme de maneira meio descompromissada no início, enfatizando a convivência juvenil, mas sabe fazer crescer a substância e gravidade dos assuntos, terminando por nos envolver emocionalmente com os personagens de uma forma que não suspeitávamos no início. Ele deixa sua própria história em segundo plano relativamente aos outros dois. Até porque ele é o mais bem-sucedido dos três.

A repercussão do documentário, premiado em Sundance e em diversos festivais e eleições da crítica, gerou um convite para Zack estrelar um filme de ficção de baixo orçamento. Com seus recursos de cinema-verdade (como os comentários em cena sobre o filme), Minding the Gap certamente foi uma manobra radical que deu nova dimensão ao futuro daqueles rapazes.

Mulher Maravilha

Ruth Bader Ginsburg, ou simplesmente RBG, foi a segunda mulher – e a primeira liberal – a integrar a Suprema Corte americana. Está lá até hoje. Aos 85 anos, virou ícone pop e tema de memes (péssimos). No filme, ela aparece rindo das imitações humorísticas que dela fazem na TV. O documentário de Julie Cohen e Betsy West, realizado por equipe quase toda feminina, faz um perfil biográfico dessa simpática e sóbria senhorinha judia que afrontou o conservadorismo judicial desde os anos 1960.

A juíza Ruth é em tudo o oposto dos reacionários e intimidados ministros do nosso STF atual. Cresceu e formou-se durante a perseguição aos “vermelhos”, o que lhe acendeu um alarme. Frequentou Harvard numa época em que o Direito era coisa de homens. Como advogada e depois juíza, promoveu a igualdade de gêneros em várias frentes, associando isso às lutas pela igualdade racial. Defendeu a livre escolha da mulher em relação ao aborto. Votou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo – o que não é mencionado pelo filme – e chegou a celebrar um desses matrimônios para dar o exemplo.

Obviamente, RBG galgou seus principais postos sob os governos democratas de Carter e Clinton. Quando Trump se candidatou, ela o chamou de falsário. Alertada de que havia ultrapassado uma linha vermelha, pediu desculpas, mas nunca retirou o que disse. Seus votos dissidentes ficaram famosos e inspiram estudantes e jovens juristas.

RBG, o filme, pode não ser muito mais que uma monografia caprichada, estendendo-se um pouco à vida privada de Ruth, especialmente a sua relação de amor e dedicação com o marido Martin, falecido em 2010. Mas às vezes é dessa simplicidade que precisamos para conhecer uma personagem emblemática como essa. Uma espécie de Mulher Maravilha da Justiça americana.

Ruth está em outro recente lançamento cinematográfico, On the Basis of Sex. Nesse caso, representada pela atriz Felicity Jones em filme da diretora Mimi Leder que enfoca os primeiros anos de sua carreira. A crítica americana o tem recebido como um drama hagiográfico simplificado.

Impressões de um lugar

A presença de Apichatpong Weerasethakul como consultor artístico se faz notar, para o bem e para o mal, em diversos momentos de HALE COUNTY THIS MORNING, THIS EVENING. Ora na rarefação da (não)narrativa dessa crônica do cotidiano de uma comunidade interiorana do Sul dos EUA; ora na inserção de fulgurações e efeitos quase fantásticos na Natureza do lugar. O que falta, porém, é a densidade de que o cineasta tailandês consegue dotar suas fábulas.

Hale County partiu do encontro do diretor RaMell Ross com esse condado, aonde foi ensinar fotografia e basquete(!). Ele passou a gravar aleatoriamente a vida comum das pessoas, entre fragmentos, cenas inconclusas e uma grande atenção para as crianças e os insetos. Mas há também cerimônias evangélicas, treinamento de basquete e conversas sobre o próprio filme que estava sendo feito. Na ausência de contornos, a única célula de desenvolvimento dramático diz respeito a uma moça grávida de gêmeos que perde um dos filhos logo após o parto.

Em termos de economia cinematográfica, o documentário me pareceu extremamente perdulário. Um eventual interesse pela oralidade regional ou algumas tomadas mais curiosas (como uma menina chorando enquanto um avião faz acrobacias dentro do mesmo plano) não compensam as longas cenas de conversa fiada, ações domésticas banais e espasmos de time lapse, ralentação e aceleração da imagem. O impressionismo, nesse caso, não me impressionou.

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