Terra sem pão

RAIVA

Na época salazarista, a região do Alentejo era considerada o celeiro de Portugal por conta de sua produção de cereais. Mas também nessa área a fome grassava entre os camponeses que caíssem na desgraça dos latifundiários. RAIVA, coprodução luso-brasileira dirigida por Sérgio Tréfaut (português nascido no Brasil de pai alentejano e mãe francesa), põe em cena uma dessas famílias condenadas à miséria numa terra farta e ao mesmo tempo sem pão.

O filme se baseia no romance neorrealista Seara de Vento (1958), de Manuel da Fonseca. Traz um elenco estelar do cinema português. Hugo Bentes é Palma, camponês sem trabalho que se aventura numa pequena trupe de contrabandistas. Leonor Silveira é sua mulher, acabrunhada por uma vida sem sentido. Isabel Ruth é a sogra e Rita Cabaço é a filha de Palma que faz ativismo entre os camponeses. Diogo Dória vive o rico latifundiário Elias Sobral, que já havia roubado as terras de Palma e agora o persegue.

A adaptação (ou a montagem da brasileira Karen Harley) optou por uma estrutura fatalista, partindo em flashback desde as cenas em que Palma assassina a sangue frio Elias e seu filho, poupando a filha (a bela Catarina Wallenstein) por uma razão que saberemos depois. Um sentido trágico se projeta, então, sobre os acontecimentos anteriores nas duas famílias.

Tréfaut é um excelente documentarista (Lisboetas, Fleurette) e, na ficção, esmera-se na criação de ambientes sugestivos. RAIVA, rodado inteiramente em preto e branco, remete a algumas matrizes estéticas dos anos 1950 e 60. A esplêndida fotografia de Acácio de Almeida ecoa imagens do mexicano Gabriel Figueroa e do alvorecer dos Cinemas Novos. Algumas tomadas épicas da terra rústica chegam a lembrar Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Visualmente deslumbrante, falta, porém, a RAIVA uma centelha de emoção para aquecer seu formalismo austero. Tréfaut jogou suas fichas na intensidade dos closes e na lenta evolução dos diálogos e ações, sugerindo assim a carga de fatalidade que pesa sobre aqueles destinos. Acabou por fazer um filme nobre e respeitável, mas que respira com dificuldade e se fecha em si mesmo.

 

Um comentário sobre “Terra sem pão

Deixe uma resposta para Marcos Andrade Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s