Cada um com seu documentário

O MÉTODO

Silvio Tendler, Eduardo Coutinho

Assim como gostava de se sentir desafiado por seus interlocutores, Eduardo Coutinho adorava intimidar os que se propunham entrevistá-lo. Fazia-o geralmente no início da conversa, como se vê na primeira cena de O MÉTODO, documentário que estreia nesta quarta, 10 de julho, às 21h30, no Canal Curta! Ele questiona o diretor Carlos Roberto Franke sobre sua origem e suas intenções, pergunta se aquilo vai “dar filme”. Na verdade, não é só ele. A sequência de abertura mostra diversos documentaristas criticando a ideia de fazer um filme sobre documentários a respeito de saúde e meio-ambiente. É praxe que toda conversa sobre documentários comece com uma discussão sobre documentário.

Franke partiu de um projeto de doutorado sobre comunicação científica, pelo qual recebeu financiamento para o filme. No curso da pesquisa expandiu seu foco para os métodos de diversos documentaristas brasileiros e alemães. Chamou Liliana Sulzbach para dirigir com ele a versão final de O MÉTODO. Assim é que Coutinho foi parar no meio de diversos realizadores envolvidos com o documentário investigativo socioambiental e político nos dois países. Não que o diretor de Cabra Marcado para Morrer e Boca de Lixo não tenha se engajado nesses modelos, mas sua presença é tomada mais pelo cinema de conversa que desenvolveu a partir de Santo Forte e que se distancia bastante dos outros diretores abordados.

Mais que distinguir diferentes métodos, o filme mapeia ideias básicas sobre procedimentos de pesquisa, formas de acesso a questões delicadas, uso de narração e entrevistas, tratamento da informação. Discutem-se as virtudes e impropriedades da roteirização compulsória de documentários para editais e a eventualidade de os filmes provocarem transformações sociais.

Enquanto Coutinho dá ênfase a seus dispositivos e aos atributos da fala, Silvio Tendler faz sua profissão de fé no “ponto de vista documentado” e na popularização do conhecimento. A alemã Inge Altemeier chega a admitir que mente para ter acesso a realidades que de outra forma permaneceriam encobertas. É dela a história mais impressionante, a repeito de uma iniciativa sua em favor de crianças exploradas pela indústria no Nepal, que terminou por colocá-la diante de uma contradição dolorosa.

Embora contemple questões importantes do fazer documental, O MÉTODO se ressente de sua origem numa pesquisa específica sobre filmes no campo da saúde e meio-ambiente. Esse tema acaba por se sobrepor a uma indagação mais aberta a diferentes metodologias, que poderiam incluir os documentários de observação, poético, performático, pessoal, etc. É interessante, mas um tanto restrito.

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