E O Pensador ficou de pé

ABAIXO A GRAVIDADE

Gravidade tem dois sentidos. Pode ser a força natural que impele a massa em direção à Terra, fazendo os homens caírem e a vida tender ao chão. Mas pode ser também a seriedade ou a qualidade do que pode ter consequências perigosas ou nefastas. Tudo isso faz a riqueza semântica do título do terceiro longa de Edgard Navarro.

Num dado momento de ABAIXO A GRAVIDADE, o ator Bertrand Duarte, que interpreta um hilário burguês com problemas de psique e de próstata, expõe ao seu psicanalista o desejo de romper o imobilismo da estátua O Pensador, de Rodin, fazê-la levantar-se, abrir os braços e contemplar o zênite, numa tomada de atitude, afinal. Esse é bem o espírito de Navarro, pensador hedonista de um cinema que vê o mundo com os braços abertos.

Rodin é uma referência burlesca que percorre o filme de ponta a ponta, aludindo talvez ao xodó dos baianos pelo escultor francês. Desde 2006, Salvador tem um Museu Rodin, o único da América Latina e quiçá de fora da Europa. Há mesmo uma sequência fantástica em que uma grande réplica de O Pensador é transportada por um helicóptero pelos céus da cidade, à moda de uma famosa cena de A Doce Vida de Fellini. A obra-prima de Rodin aparece em projeções, estátua viva, telas de computador e até travestido em Exu, como ícone de um estado a ser superado.

É o que se passa também com o protagonista, o idoso Bené (Everaldo Pontes), que vive em isolamento budista numa comunidade rural, plantando verduras e fazendo curandeirismo. Ao mesmo tempo em que se descobre gravemente doente, ele trava conhecimento com Letícia, bonita moça grávida, pós-hippie, de quem se põe a cuidar com desvelo paternal. Para acompanhá-la, troca o exílio rural por Salvador, onde passa a conviver com moradores de rua e tem que escolher entre o tratamento da saúde e os últimos apelos da libido.

Do recolhimento espiritual na Natureza à extravasão urbana, Bené vive a abertura para as impurezas, os riscos e as intempéries. Seus encontros trazem à cena tipos característicos da galeria navarriana, como o exuberante mendigo Galego, que se apresenta como “o suprassumo da escrotescência”, e um novo Ícaro que tenta alçar voo das areias do Abaeté e ecoa o subherói do clássico curta Superoutro. O ator desse curta, Bertrand Duarte, faz agora o papel de Myself, o burguês que não consegue desgrudar de si mesmo.

Citações a si próprio, a Fellini, Pasolini (Teorema), Kubrick (2001) e outros cineastas compõem a tapeçaria cinefílica de Navarro. Não é uma tecelagem exatamente coesa e disciplinada. Muita coisa se perde em vácuos narrativos e excessos de demonstração. Mas o que prevalece é a vivacidade do diretor, é Navarro no fio da navalha com seu talento para revelar os desvãos de uma Salvador muito fecunda, da qual se pode quase sentir o cheiro. E de onde brota uma poesia astral delirante, sincrética e mágica.

Só mesmo a Bahia seria capaz de fazer levantar e levitar aquele homem eternamente sentado de Rodin.

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