por Paulo Lima
O documentário Meu Pai e Kadafi (My Father and Qaddafi), de 2025, mostra o drama pessoal do ativista líbio Mansur Rashid Khikhia, morto pelo regime de Muamar Kadafi. Nele, a pequena história e a grande história se entrecruzam.
Khikhia era um defensor dos direitos humanos e diplomata que atuou contra a tirania de Kadafi. Pagou com a própria vida o preço de sua militância em prol de um mundo árabe unido. Seu corpo foi encontrado numa fazenda nos arredores de Trípoli, em 2012, após a queda de Kadafi.
Em 1993, morando em Paris com sua família, após ter ocupado um cargo na ONU, Khikhia viajou ao Egito em uma missão destinada a fortalecer a oposição ao ditador líbio. Desapareceu do hotel em que estava hospedado e nunca mais foi visto.
Décadas depois, a cineasta Jihan K, filha de Khikhia, decidiu investigar o sumiço do pai. Meu Pai e Kadafi é o resultado dessa busca. Imagens de arquivo mostram uma família feliz, com Khikhia ao lado de sua esposa Baha Omary Khikhia, síria naturalizada americana que ele conheceu em Nova York, e de seu casal de filhos, então crianças.
Khikhia é retratado como um homem carismático, com bom trânsito no mundo árabe, destinado a se tornar um grande líder político, apontado como substituto natural de Kadafi.
O filme de Jihan K procura montar o quebra-cabeças da vida do pai, de quem ela mal se lembra (tinha apenas seis anos quando ele desapareceu), entrelaçada com a história política da Líbia, marcada inicialmente pelo colonialismo europeu e depois pelas investidas norte-americanas.
Nesse jogo de forças, Muamar Kadafi emerge como um líder a princípio promissor na defesa dos interesses da Líbia, após derrotar o jugo da monarquia, tendo contado com a confiança do próprio Mansur Khikhia. Com o tempo, entretanto, mostraria sua face sanguinária.
O documentário de Jihan K move-se num intenso vaivém no tempo, costurado por imagens históricas e uma série de testemunhos de amigos, parentes e correligionários de Khikhia, com ênfase nas falas da sua esposa Baha e filhos, formando um mosaico que pode nos fazer perder, às vezes, o fio da meada, refletindo na verdade a complexidade da situação política que envolve o tecido político no mundo árabe.
Neste sentido, Meu Pai e Kadafi contribui não só para estampar uma página sangrenta do regime de Muamar Kadafi, mas também lança uma luz sobre a intrincada correlação de forças no Oriente Médio. Uma trama que pode ser exemplificada pela guerra atual envolvendo os ataques de Israel contra o Irã, com a ajuda americana, evoluindo para outros países da região.
Paulo Lima




