Tenho vontade de dizer que Um Filme de Medo (Una Pelicula de Miedo) é um filme sobre o inacabado, ou melhor, sobre o inatingido. Sergio Oksman, diretor e professor de cinema brasileiro radicado em Madri, viaja com seu filho a Lisboa e hospedam-se no Residencial Terminus, um hotel vazio e prestes a ser reformado.
Nas dependências de um casarão modernista que lembra o hotel de O Iluminado, com um dos quartos interditados por pertencer a uma espécie de hóspede-fantasma, Sergio quer satisfazer o gosto de Nuno por filmes de terror e, ao mesmo tempo, fazer com que o garoto pratique o português. Anotem essas duas coisas entre os objetivos não alcançados pelo pai-cineasta.
Sergio adota um estilo cool e despojado para assimilar a ficção ao seu documentário. Ele e Nuno encenam procedimentos da hotelaria e divagam sobre criminalidade. A história do serial killer Diogo Alves, do século XIX, é evocada por um filme inacabado de 1909, o que teria sido o primeiro filme de ficção português. O próprio Sergio teve um projeto sobre o assunto e chegou a filmar a cabeça do assassino conservada em formol. Mas, também aqui, não foi adiante.
Um dos temas subjacentes a Um Filme de Medo é a hereditariedade. Sergio interroga Nuno sobre a semelhança entre eles. Incorpora filmagens do seu pai, do qual esteve afastado por décadas e sobre quem tentou fazer um filme, igualmente deixado para trás. A proximidade e o jogo de cena com Nuno são formas de manter o filho por perto, ao contrário do aconteceu com seu pai.
São muitos os caminhos para o documentário familiar, e esse é um deles: tratar do assunto abrindo-o para outras possibilidades de fabulação. Sergio Oksman não parece aqui interessado em chegar a conclusões, nem explorar as convenções do gênero terror. Conta com a simpática cumplicidade do filho para tentar retirar do malogro uma singela e melancólica diversão quase caseira.




