por Paulo Lima
Se é verdade que uma vida dá um romance, a de Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade daria um romance inacreditável. Ou melhor, a vida de Baby Consuelo, ou seja, Baby do Brasil.
Cada uma das personas que a cantora incorporou – até agora – em fases distintas de sua vida guarda uma história que soa inverossímil, tamanha é a sucessão de mistérios e acasos que a têm norteado. Mas o que chamamos de acaso, Baby do Brasil credita a um desígnio cósmico.
É sua vida regida pela busca da espiritualidade e por uma intensa energia que conta o documentário Apopcalipse segundo Baby, do diretor Rafael Saar.
A cena que abre o longa funciona como uma espécie de síntese da personalidade esfuziante da artista. Uma Baby mais jovem faz uma apresentação ao vivo, em que canta o chorinho Brasileirinho. Ela aparece imersa num transe, como se tomada por uma explosão de sensualidade. A cena seguinte mostra um vulcão em plena erupção. A analogia não poderia ser mais clara: Baby, uma força da natureza, uma potência telúrica.
A guerreira irrefreável se manifestou já na adolescência, quando partiu para Salvador (nascida em Niterói, ela se autointitula “falsa baiana”), seguindo o que ela acreditava ser um projeto, uma profecia. Seria o primeiro de muitos chamados e sintonias místicos.
Em Salvador, conhece Pepeu Gomes, que se tornaria seu parceiro na vida e na arte. No contato com a turma que viria a ser o grupo Novos Baianos, se transforma em cantora, única coisa que ela quis ser de fato na vida.
Mas até se fixar com os Novos Baianos no mítico convívio coletivo do grupo no Rio de Janeiro, viveu outras existências: morou debaixo da ponte, foi hippie, atriz, tudo vivido sob os símbolos da liberdade e da alegria.
É a própria Baby, ou as muitas Baby, que conta a história, retratada em diferentes épocas de sua carreira como cantora, seja como integrante dos Novos Baianos, seja em voo solo ao lado de Pepeu Gomes, até a separação do casal.
Numa das imagens emblemáticas de sua força transgressora, Baby aparece durante uma apresentação no Rock in Rio de 1985 exibindo uma gestação já avançada. O barrigão, entretanto, não a impediu de fazer a performance de uma artista que sempre girou em órbita exclusiva e que se desdobrou também no papel de mãe de uma prole de seis filhos.
Soma-se às suas personas a peregrina, em sua busca pelas trilhas do sagrado e do terreno. Hoje, ela se diz “ligada na fiação do céu, no apocalipse”, cantando gospel. É uma nova fase marcada pela conversão religiosa. “É como se eu estivesse saindo de novo de casa”, ela acredita, incansável.
Paulo Lima




