Com fé na América do Sul

Gonzalo Arijón

Gonzalo Arijón

Em seu primeiro encontro com Barack Obama, Hugo Chávez o presenteou com um exemplar do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. A cena, agudamente simbólica, conclui o doc Con los Ojos Bien Abiertos, que o uruguaio Gonzalo Arijón (autor do magnífico Stranded) trouxe ao É Tudo Verdade/B. As palavras indignadas e vibrantes de Galeano, bíblia do sentimento anti-imperialista no continente, entravam, enfim, na Casa Branca. “Sejamos otimistas”, diz o diretor-narrador.

Ojos vê com otimismo a ola renovadora que começou com as eleições de Lula, Chávez na Venezuela e Nestor Kirchner na Argentina, e encorpou com Evo Morales na Bolívia, Michelle Bachelet no Chile, Fernando Lugo no Paraguai, Tabaré Vásquez no Uruguai e Rafael Correa no Equador. O filme, porém, se concentra nas experiências brasileira, boliviana, venezuelana e equatoriana. Assume um vago formato de viagem, com Galeano costurando ideias como um xamã (a comparação é do diretor). Arijón se detém em cases de cada país, alternando sua voz de simpatizante com algumas vozes contrastantes colhidas nas ruas e em materiais de arquivo. 

Curiosamente, Lula – sobre quem Arijón havia feito um filme em 2005 – é quem recebe o retrato mais ambíguo. De um lado, é apontado como mensageiro da esperança e lastro mais sólido da integração regional; de outro, é criticado por esquerdistas radicais por não ter feito a reforma agrária e supostamente continuar beneficiando os antigos poderosos. “Um sindicalista nunca vai fazer a revolução”, garante um líder rural brasileiro. Já em relação a Morales e Chávez, as vozes constrastantes vêm de fontes comprometidas com a direita (os separatistas de Santa Cruz de la Sierra) ou de menor expressão (uma celeuma entre vizinhos em Caracas). Embora aponte excessos de populismo e idolatria em Chávez, e mencione en passant a incidência de corrupção no Equador, Arijón não hesita em professar sua fé na revolução nascida das urnas e no processo de integração regional.

Eis aí um doc que não esconde sua coloração, assim como South of the Border, que Oliver Stone apresentou no Festival de Veneza, tratando do mesmíssimo tema (leia mais). Mas enquanto Stone privilegiou os encontros com presidentes, Arijón optou por personagens populares: taxista, militante comunitária, índios, professor do MST. Uma boa pesquisa de cenas de TV faz o contraponto dos presidentes em momentos muito especiais. Chávez, em seu estilo fanfarrão, protagoniza os melhores, como o famoso coro de “Alca, Alca, al carajo!”.

Com algum enxugamento, que Arijón ainda pretende fazer, Con los Ojos Bien Abiertos estará pronto para servir de resenha política da América do Sul atual. Se depender de uma sugestão minha, ele cortaria as cenas em que funde os rostos de Lula e Morales com imagens de nuvens. Além de soar naif, lembra incomodamente o tratamento de Leni Riefenstahl a Hitler na abertura de O Triunfo da Vontade.

De resto, é um filme corajoso no elogio de um modelo que muitos bem-pensantes aprovam à boca pequena e se calam publicamente. Parente próximo dele, mas com menos clareza na exposição, é o Pachamama de Eryk Rocha. Que, aliás, Arijón anda louco para ver.     

Com los Ojos Bien Abiertos ainda terá uma exibição no Instituto Moreira Salles nesta quinta-feira, às 14 horas. A entrada é franca.

3 comentários sobre “Com fé na América do Sul

  1. Pingback: Simpatia política não garante bons filmes « …rastros de carmattos

  2. Carlos Alberto,

    Assino embaixo do que você escreveu.

    Fomos jantar, Arijón, Marcelo Flores (que está fazendo um documentário, que parece interessantíssimo, sobre Lévy-Strauss e suas lembranças dos Nhambiquaras) e eu. Na conversa, sugeri que Gonzalo abrisse o documentário com Obama recebendo as Veias Abertas: a cena atualizaria e contextualizaria o documentário a olhos estrangeiros, já apresentando o Galeano que costura os diversos pedaços.

    No mais, tenho a impressão de que esse discurso político dos nosso hermanos, tão marcado, já não funciona no Brasil atual. Não que sua crítica à exploração de sempre não seja correta, mas o tom, hoje, precisa ser outro, para alcançar e ganhar uma opinião pública meio perdida, que não absorve uma argumentação radical, mas aprovaria e quiçá até se mobilizaria com uma fala mais serena e não menos forte. De qualquer modo, o documentário tem cenas comoventes em si, como a dos mineiros bolivianos condenados a repetir o mesmo script de seus pais.

    Quanto a Lula, acho que Arijón não lhe faz justiça ao dar tamanha importância a um crítico parcial em vez de colocar opiniões divergentes, para que o público pudesse julgar. Comentei isso com Gonzalo: a maneira como o Brasil é visto desde os países latinoamericanos não se expressa no filme. Sua justificativa é que já havia falado muito de Lula em documentário anterior, mas cada coisa é uma coisa. Enfim…

    Um abraço
    do

    Claudius

    • Salve, Claudius. Que honra ter um comentário seu – e tão consistente -aqui no blog. O peso errado para o Lula é de fato um problema no filme, e a justificativa do doc anterior é inadequada. Mas o trabalho do Gonzalo tem a qualidade da paixão, o que tem sido raro no gênero.

      Estamos trabalhando para conseguir uma distribuição da obra-prima “Stranded” no Brasil. Abração!

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