Coutinho e o zapping de autor

A famosa “sessão única” de Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho, realizada na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, repetiu-se sábado no Rio, no Instituto Moreira Salles. Nada foi anunciado previamente, não se cobraram ingressos. Mas o público que lotou a salinha da Gávea para a Sessão Cinética, em sua quase totalidade, sabia ou suspeitava de que havia algo mais nas quatro horas da programação reservadas para debate.

O fato é que a sessão carioca foi muito diferente da paulista. Não havia mais o fator surpresa, já que praticamente todos ali sabiam do que se tratava por terem lido em blogs e jornais. Restava conferir e experimentar. Segundo Ilana Feldman, que esteve nas duas exibições, os espectadores do Rio demonstraram maior descontração perante as imagens reunidas por Coutinho. De fato, riu-se muito do desfile de vulgaridades e absurdos expostos na tela grande.

Como se sabe, Um Dia na Vida é uma seleção de trechos da programação da TV aberta do dia 1º de outubro de 2009. A partir da gravação de 19 horas de seis canais, Coutinho e a montadora Jordana Berg fizeram uma edição de pouco mais de 90 minutos. Como roteiro, mantiveram os programas em suas respectivas faixas de horário. Assim, sucedem-se os telecursos, os programas pseudoeducativos, os de culinária e beleza feminina, auto-ajuda e religião, televendas, reportagens policiais, novelas, variedades e, por fim, os indefectíveis pastores da noite.

Na conversa após a sessão, Coutinho avançou mais algumas ideias que nortearam esse projeto. Reiterou, por exemplo, que se tratava, sim, de uma pesquisa para filme futuro. Contou que já tinha até atores contratados para um filme todo feito de citações – da TV, de livros e até da lista telefônica. Que pretendia trabalhar com as ideias de pilhagem e plágio, focando “as tolices do mundo”. E que nessa montagem-pesquisa, tinha “intenções ideológicas e dramatúrgicas”.

O debate, dada a força do tema, tendeu a abordar a televisão e suas veleidades. Mas houve espaço também para tratar do filme (ou “esse troço”, como prefere Coutinho) como filme mesmo. Afinal, ninguém edita e exibe 90 minutos de material se não achar que tem ali um produto.

Embora sem nenhuma intervenção visível além das anotações de horário, Um Dia na Vida é um filme construído para surtir efeitos sobre o espectador. A seleção privilegiou um certo exotismo, acentuado por uma edição que reproduz o fluxo incessante da televisão, sem pausas, nem silêncios, nem tempos mortos. Essa “fidelidade” ao formato original faz com que tudo se assemelhe a um zapear constante. Não um zapear movido pelo acaso, mas um cuidadosamente pensado de antemão. Digamos, um zapping de autor.

O autor Coutinho não gosta de assumir claramente, mas fez o seu zapping em busca de efeitos precisos sobre a plateia. Seja a pura hilaridade, por exemplo, quando corta do show da banda gótico-paródica Massacration para as feições tumulares de William Waack; seja a ironia política, quando passa de Lula parafraseando o “Yes, we can” de Obama diretamente para uma recepção de socialites paulistas no programa de Amaury Jr.

A TV brasileira não sai bem na foto de Um Dia na Vida. Coutinho se pergunta por que tanta gente gosta dela. Cobra dos estudiosos investigar os padrões de recepção da TV no Brasil. “A respeito disso só tem chute por aí”, reclama. Seu “troço” é uma provocação nesse sentido. Diante da tela do cinema, irmanados por um misto de rejeição e perplexidade, rimos muito com o acúmulo de sandices que costumam passar batidas no dia-a-dia. O zapping de autor nos coloca frente a frente com um banquete de irrealidade. Mas, no fundo, como quase todo filme de Coutinho, é uma ideia simples levada a cabo com engenhosidade.

2 comentários sobre “Coutinho e o zapping de autor

  1. Uma pena eu não ter visto. Agora é esperar pelo novo filme. Inveja da Ilana, que esteve nas duas. Participei do curso que ela deu sobre Filmes Domésticos, junto com a Lila Foster. Foi uma experiência riquíssima para mim.

  2. Carlinhos,

    A TV brasileira precisa ser descontruída. E Coutinho tem tudo para fazer tal tarefa. Pena que “Um Dia na Vida” não possa ser exibido regularmente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s