O voo do urubu

No ano passado, Nelson Pereira dos Santos nos encantou a todos com a pureza dos arquivos musicais em A Música Segundo Tom Jobim. O diretor se “ausentava”, por assim dizer, deixando que a própria música e as imagens dos intérpretes dissessem tudo sobre o maior compositor popular brasileiro. A gente se lembra: ninguém aparecia falando sobre Tom, não havia narrador nem informações sobre ele que não fosse a música.

Dividindo a direção com Marco Altberg, Nelson traz agora, em A Luz do Tom, uma espécie de contracampo daquele primeiro filme. Dessa vez não temos nenhuma imagem de arquivo, a não ser aquelas do prólogo, captadas ao vivo na Casa do Acervo de Tom, no Jardim Botânico. Pelo restante do doc, temos apenas os “arquivos” da memória da irmã Helena e das ex-mulheres Thereza e Ana. Elas recordam fases sucessivas da vida e da carreira de Tom, tendo seus relatos pontuados por trechos de canções da melhor cepa jobiniana, todas interpretadas por ele. Entre as muitas histórias, me agradou particularmente saber que Águas de Março surgiu de uma conversa fiada com Thereza sobre obras no sítio durante um momento de cansaço da criação de Matita Perê.

Foto: Dario de Almeida Prado

O trabalho de direção aqui se mostra mais evidente, para o bem e para o mal. Há uma intenção clara de impregnar as falas das três mulheres com imagens da natureza, outra paixão de Tom Jobim. Por isso elas aparecem na maior parte do tempo em externas, numa interação um tanto forçada com as paisagens da costa catarinense (Helena), da região serrana do Rio (Thereza) e do Jardim Botânico carioca (Ana). A relação com a natureza é enfatizada por um dispositivo naif, mas curioso: um olhar de ave que sobrevoa os cenários e pousa sobre as entrevistadas.

Nem sempre voa e pousa bem, como os urubus de que falava Tom Jobim no texto da contracapa do seu disco: “No chão não te moves bem. Fraco de pernas, maljeitoso, troncho, pousado és o mais feio dos urubus. Despropositado passarão”. Mas no voo, Tom celebrava a avezona: “Que sabes do alto o que se esconde no chão da mata virgem e dos muitos perfumes que sobem do mundo”.

A Luz do Tom é uma resposta à pergunta que Tom costumava fazer aos cineastas: “Você sabe filmar um urubu voando?” Nelson cumprimenta o amigo com dois filmes desiguais, mas complementares. O voo do urubu, neste segundo tomo, é um aceno meio desajeitado a tudo aquilo que Tom mais amava.

3 comentários sobre “O voo do urubu

  1. Este segundo filme do Nelson sobre Tom (mais sobre a pessoa do que o artista, em certa medida) foi uma terrível decepção. A cena onde jovens em um bar fazem perguntas a Helena Jobim é patética em seu amaodrismo. Aliás, Helena soa totalmente fake. Theresa é mais convincente e “justifica” um pouco o filme. Ana Lontra ainda passa, mas a opção estética de deixar cada uma falar, falar, falar sem uma edição complementar era um risco que não se realizou nada bem. O filme se arrasta apaesar da perquena metragem e não faz jus ao anterior. Achei que o bonequinho dO Globo teria sido cruel demais antes de ver o filme, mas infelizmente concordei com ele: eu também cochilei durante o filme, um tédio só.

  2. Pequeña anécdota sobre Nelson y Tom.- El año pasado, en el Festival de Piriápolis, en Uruguay, Nelson Pereira dos Santos fue homenajeado por el conjunto de su obra y concurrió con su última película.- “La música según Tom Jobim” provocó una explosión de aplausos y de placer en el público, que comprendió la perfección de este espectáculo concebido por un gran director: tras la breve secuencia inicial, que ubicaba al espectador en el Río de los años cincuenta-sesenta desde el cual surgió su música para conquistar el mundo, nada interrumpía o distraía luego del registro acumulado de esa música, con su capacidad sorprendente de enriquecer la vida de quienes la escuchaban.
    Me acerqué a Nelson en algún momento y le observé: “Tu obra tiene dos estudios sobre la música popular carioca separados por cincuenta años. El que haces sobre el negro compositor de sambas y amigo tuyo, interpretado por Grande Otelo, en “Río, Zona Norte”, y ahora esta “Música según Tom Jobim”. Pero esta última música, salida de la clase media ilustrada de Río, no existiría sin la otra, patrimonio del pueblo humilde”.
    Nelson no comentó nada, se alejó, caminó un rato. Cuando volvió me dijo: “¿Sabes? Cuando este negro amigo mío me encontraba por la noche, en alguna mesa de café, se acercaba para comunicarme su última pieza, su última idea musical para un samba. Como no sabía música sólo podía tararear la melodía. Y si Tom estaba en la mesa, sacaba lápiz y papel y apuntaba esa melodía en notación musical estricta”.
    Separadas por medio siglo, dos películas del mismo cineasta muestran la unidad –no muy aparente tal vez, pero honda– que existe en el desarrollo de la música popular carioca. Quizá algo de eso que André Malraux llamó, en algún lugar, “metamorfosis de las formas” en el arte.-

    • Caro Raúl, foi muito bom tomar conhecimento dessa conversa com o Nelson. A música popular brasileira é tema ou subtema frequente na obra de NPS. Entre Rio Zona Norte e Tom Jobim, ele tratou da música afro-brasileira em Tenda dos Milagres e da música sertaneja em Estrada da Vida. E ainda fez um curta de homenagem póstuma a Zé Kéti, o compositor amigo que inspirou Rio Zona Norte.

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