Cássia, Stephen, Grimm e Darel

Se para mim, que nunca fui muito fã de Cássia Eller – talvez por nunca ter parado para ouvi-la com atenção –, o documentário de Paulo Henrique Fontenelle causou uma profunda emoção, imagino para quem já a amava e admirava. No fundo, CÁSSIA ELLER não foge muito ao padrão de docs biográficos musicais. Abre e fecha com louvores, conta a formação do artista, situa suas grandes viradas de carreira (vários “divisores de água” são apontados para Cássia), pontua a vida pessoal e as características de sua performance, e finalmente entra nos excessos do sucesso e, quando é o caso, na inflexão consternada rumo à morte e sua contraparte, o elogio do legado. Tudo isso está no filme, mas nada soa como clichê de gênero. Talvez porque Cássia já fornecesse, de saída, todos os dados da sua própria dramaturgia: o misto de selvageria e timidez, as mudanças de pele artística através do tempo, a vida loca de roqueira indisciplinada, a surpresa da maternidade, a desmedida dos amores que se condensaram ao seu redor e ainda aquela linda história de amor com Maria Eugênia, que reverberou após seu desaparecimento. Paulo Henrique construiu um roteiro convencional mas super eficiente, que consegue conciliar as diversas Cássias num perfil de imensa simpatia. Tudo estava dado, mas organizar os sentidos e ilustrar cada detalhe com a imagem mais eloquente é mérito do filme. Particularmente, saí impressionado com sua voz, suas atitudes e a lição que ela deixou sobre a liberdade do afeto.


Quem quiser um filme sobre as ideias de Stephen Hawking não perca tempo com A TEORIA DE TUDO. Vá atrás de “Uma Breve História do Tempo”, o documentário de Errol Morris. Ali encontrará muitas considerações sobre buraco negro, tempo imaginário e outros conceitos com que ele trabalha. Jane, sua mulher durante os 26 anos mais produtivos de sua carreira, merece apenas duas menções rápidas e uma foto no filme de Morris, feito com base no livro homônimo de Hawking. Já A TEORIA DE TUDO é baseado no livro de Jane, o que faz toda a diferença. Nele, a Ciência passa ao segundo plano. É interessante ver a própria Jane usando uma batata e uma ervilha para explicar, à mesa de jantar, a diferença entre a Teoria da Relatividade e a Física Quântica. O foco aqui é a vida romântica e conjugal de Stephen e Jane, em paralelo à evolução da doença neuromotora que paralisou o corpo do teórico mas não o seu cérebro. Assim ele ficou com mais tempo ainda para pensar o impensável e especular sobre a não-origem e o não-fim do Universo. Vendo os dois filmes em proximidade, entendemos melhor como o interesse de Hawking por religião e Teologia o levou a considerar sempre a hipótese da existência de um Criador enquanto desenvolvia seu pensamento anticriacionista. Incorporar a possível contradição é uma das medidas da inteligência mais avançada. O roteiro de A TEORIA DE TUDO, bastante ilustrativo, dá conta do recado e consegue ser sugestivo na maior parte do tempo. Sutil e gradativamente, o diretor James Marsh (do doc “O Equilibrista”) passa de uma decupagem veloz no início, sublinhando a hiperatividade do personagem, para uma montagem mais lenta e sóbria à medida que Stephen vai ficando somente com os movimentos do pensamento. Eddie Redmayne e Felicity Jones concorrem ao Oscar de interpretação. Ela, como a abnegada Jane, está não menos que perfeita. Ele dá um show de atuação mimetizante, daqueles que a Academia adora, para desespero de Michael Keaton (“Birdman”), seu mais próximo concorrente.


meryl-streep-into-the-woodsCAMINHOS DA FLORESTA, assim como o original “Into the Woods” na Broadway, não devia começar com “Era uma vez”, mas com “Era duas vezes”. São dois espetáculos emendados um no outro. No primeiro, James Lapine e Stephen Sondheim fizeram uma pororoca de contos dos Irmãos Grimm sob o pretexto de que tudo pode acontecer na magia da floresta. Como para relativizar o anacronismo da proposta, com seu final feliz e tudo o mais, a história recomeça depois de um tremor de terra, e é como se tudo virasse de cabeça para baixo, ou quase isso. O clima fica mais “realista”, os personagens se debatem com a culpa pelos seus malfeitos e subvertem alguns preceitos tradicionais, principalmente com o elogio à família estendida e não biológica. E ainda o que poderia ser uma ilustração da famosa frase de Jenny Holzer: “Proteja-me do que desejo”. O que esse segundo ato não altera é a falta de noção do filme como um todo. Não conheço a peça, mas pelo menos na adaptação de Rob Marshall (“Chicago”) a convivência de elementos antiquados com uma certa dicção contemporânea resulta desajeitada. O grotesco descamba frequentemente para o simples mau gosto. Normalmente sou compreensivo para as regras básicas do musical, mas nesse caso tinha vontade de sair para lanchar a cada vez que alguém começava a cantar. E não excluo disso Meryl Streep, de quem sou fã incondicional e que faz sua bruxa com a competência de sempre. Aprecio também a forma vertiginosa como Sondheim conjuga melodia e letras, mas tenho a impressão de que os eflúvios florestais do palco não se transferiram para a tela.


darelDepois do belíssimo “Esse Amor que nos Consome”, Allan Ribeiro e seu parceiro Douglas Soares confirmam a sensibilidade para o documentário intimista com MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER, longa que venceu o Prêmio do Júri Jovem na Mostra de Tiradentes. O filme é bastante singelo na realização: registra o pintor e ilustrador Darel Valença Lins, 90 anos, sozinho em sua casa, ocupado com seus quadros e com as experiências de videoarte doméstica que o vêm fascinando ultimamente. Para quem não conhecia esse premiado artista um tanto recluso, é um prazer descobrir aos poucos um amante de Rembrandt e Bill Viola. E também uma pessoa de passado efusivo e que hoje, depois de pelo menos uma tragédia familiar, vive sozinho numa enorme casa no Rio. Não há um interesse vampiresco por detalhes biográficos, mas somente um desejo de estar próximo e captar a essência de uma personalidade. Allan mescla suas filmagens com os vídeos de Darel, criando uma interessante complementação entre o homem filmado por terceiros e o homem que se filma obsessivamente, em busca de imagens da solidão. Uma trilha musical estrelada por Ligeti, Messiaen e Saint-Saëns, entre outros, potencializa as imagens e imprime uma sonoridade evocativa dos filmes surrealistas e dadaístas dos anos 1920, origem de todo o cinema experimental. Essas discretas operações fazem com que a singeleza do processo dê margem a um resultado cativante.

Um comentário sobre “Cássia, Stephen, Grimm e Darel

  1. Pingback: Melhores de 2015 | ...rastros de carmattos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s