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Há cerca de 20 anos Carlos Nader iniciou um projeto de filmar conversas com caminhoneiros. Acabou se fixando em um deles, o paranaense Nilson de Paula, com quem fez o curta O Fim da Viagem em 1996. Desde então, em reencontros regulares, Nader filmava momentos da família de Nilson, incluindo o enterro da esposa, uma nova união e o crescimento de sua filha. Finalmente, decidiu editar essa convivência num longa-metragem que fosse também uma reflexão sobre o sentido da vida e o poder de ressurreição do cinema.

Embora tenha feito autocrítica sobre a intenção de introduzir temas metafísicos nas conversas com a família do caminhoneiro, Nader manteve o propósito em Homem Comum, vencedor da competição nacional do Festival É Tudo Verdade em 2014. As cenas da gente simples do interior do Paraná se ligam, por continuidades ou associações de ideias, com trechos do clássico luterano A Palavra (Ordet), de Carl Dreyer, e ainda com uma versão alternativa deste filme, rodada por Nader na Inglaterra em suntuoso preto e branco e em inglês.

A proposta é ambiciosa e sofisticada. Exige do espectador uma abertura generosa para a metáfora e as conexões de sentido, assim como o “louco” de Ordet conclama a família a crer na sua incorporação de Jesus Cristo. Por vezes o diretor parece forçar um pouco suas aproximações entre o homem comum e os eventos extraordinários da vida e da morte. Há de fato uma imposição bastante forte do autor em suas intervenções de narrador ou mesmo dentro da cena. Carlos Nader costuma ser mesmo bastante pessoal em seus filmes, que nunca se limitam a copiar a realidade. Homem Comum se apresenta como uma reflexão sobre certas propriedades do cinema: voltar no tempo, fazer ressurgirem os mortos, juntar o prosaico e o sublime. Mesmo que para isso seja preciso, como aqui, conduzir o pensamento do espectador com o leme duro da Palavra.