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RICKI AND THE FLASH tem muitos motivos para não se gostar. Trata com superficialidade a história da roqueira de direita que volta à casa da família para ajudar a tirar a filha de uma depressão conjugal. Resolve todos os problemas magicamente num dos piores finais felizes do cinema ultimamente. Não convence na relação entre mãe e filha, mesmo sendo Mammie Gummer a filha de Meryl Streep na vida real. Mais incrível ainda, em meio a mais uma performance exuberantemente comunicativa, Mrs. Streep parece às vezes exagerar nos maneirismos. E apesar de tudo isso, talvez eu não saiba explicar por quê gostei do filme escrito por Diablo Cody (“Juno”) e dirigido por Jonathan Demme. Talvez pela ausência de grandes pretensões além de criar personagens suculentos, alguns diálogos espirituosos e um bocado de observações perspicazes sobre uma família em que cada membro parece ter vindo de um planeta diferente. Mas nada me agradou mais do que a vivacidade das cenas musicais, principalmente as do bar suburbano onde The Flash se apresenta. E ver Meryl Streep encarnar com a garra de sempre uma cantora e guitarrista meio chumbada mas cheia de amor pra dar, levando hits de Bruce Springsteen, Lady Gaga, Pink e Tom Petty, é coisa que não tem preço. Nesse vídeo, um minutinho de Neil Young ensinando à atriz como se faz uma guitarra chorar: https://www.youtube.com/watch?t=106&v=GuJnHzS9P_w  Set 2015


jdfdch_pathé--672x359Esta dirigida por Benoît Jacquot é a quarta e mais fiel adaptação do romance O DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA, de Octave Mirbeau (1900). Mas não a melhor. Ancorada em fins do século XIX, como o original, preserva o amoralismo de Célestine (Léa Seydoux), motor de sua vingança da patroa arrogante e do patrão inescrupuloso. A aliança que ela faz com o empregado antissemita e suspeito de assassinato coloca-a no lado sombrio e, de certa forma, a iguala à elite que despreza. Já a versão de Buñuel (1964), que transferia a ação para os anos 1930, com o avanço do fascismo, atribuía a Célestine (Jeanne Moreau) um senso de moral inexistente no romance. Ela seduzia e manipulava patrões e empregado para manter-se limpa moralmente, aí residindo a ambiguidade fundamental de Buñuel. Ele usava Célestine para expor as perversões e fetichismos da burguesia em tom que beirava a comédia erótica. Jacquot, por sua vez, se prende às maneiras da época e faz um filme burguês, bem comportado, sem subtextos. De qualquer forma, é um programa que ganha interesse pela proximidade com “Que Horas Ela Volta?”. Val e Jéssica personificam na atualidade as duas faces de Célestine: a submissão da doméstica que “sabe o seu lugar” e a emancipação da moça que “veio de Paris” e perturba a ordem dominante.


Nina-SimoniFinalmente assisti ao elogiadíssimo doc O QUE ACONTECEU, MISS SIMONE?, dirigido por Liz Garbus e produzido pela Netflix, que agora entrou pra valer no segmento da produção. Não deixa de ser uma cinebiografia convencional, mas tem qualidades notáveis. Uma delas é interromper apenas uma vez a narrativa para inserir um número musical (quase) completo, ao contrário de tantos filmes do gênero, que mais parecem coleções de performances. Cada música serve ao desenvolvimento de um momento na carreira e na vida de Nina Simone, adequando-se como tema e como clima. Assim, o que temos é uma suíte musico-biográfica de confecção impecável. Outra virtude do filme é a sua economia de vozes. Além da voz de Nina, da filha e do ex-marido, são apenas mais três ou quatro personagens que colocam tijolos esparsos na construção do perfil. Isso evita maiores dispersões e nos aproxima da personagem central. De resto, é a incrível história de uma mulher possuída pela revolta e frustrada por não ter realizado um desejo, o de ser uma grande pianista clássica. A fúria e a doçura alternadas em suas apresentações refletiam uma bipolaridade que marcaria sua imagem na memória do público. Lembro que a vi tocar, bem de perto, no Free Jazz Festival de 1988 (foto). Era uma presença magnetizante, justamente porque não sabíamos se ela iria incendiar-se no palco ou desabar sobre o piano. Foi lindo e muito tenso.