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A carreira ultimamente irregular de Domingos Oliveira ganha um ponto acima da curva com INFÂNCIA, que creio ser o seu primeiro filme de época. Embora irregular também internamente, o filme tem tantos momentos de perspicácia e humor que se torna irresistível. O viés autobiográfico é ambíguo e centra-se no menino Rodrigo, cercado por uma família da burguesia industrial nos anos 1950. No papel da imperial matriarca Dona Mocinha, Fernanda Montenegro fatura cada frase e cada inflexão num retrato de doce arrogância e autoritarismo congênito. Não há mesmo atriz como ela, capaz de transformar a fala mais corriqueira numa cintilação de surpresa e autenticidade. Domingos demonstra aqui um acento renoiriano (A Regra do Jogo) na exposição da moral da época. As relações conjugais, familiares, econômicas e de classe são desvendadas através de diálogos e situações imprevisíveis, dirigidas com propriedade, ainda que nem sempre os atores infantis deem conta do recado com a naturalidade e a fluência desejáveis. Mas a execução técnica é a melhor de seus últimos filmes. No pano de fundo, a guerra entre Samuel Wainer (Última Hora) e Carlos Lacerda anuncia a iminência do fim da Era Vargas e da abertura de um novo capítulo na história do país e de nossas famílias. Assim como Domingos viria a representar um filão da cultura brasileira na segunda metade do século passado, este filme põe em cena a infância da nossa modernidade.


UM FILME FRANCÊS, de Cavi Borges, é um pequeno tratado sobre o cinema amador, em muitos sentidos. Exala admiração pelo cinema dos anos 1960, especialmente a Nouvelle Vague e o Cinema Novo. Foi rodado em preto e branco com inúmeras citações a filmes de Godard e Truffaut, mas com ecos associáveis também a “Todas as Mulheres do Mundo”, entre outros. Além de referências a poesia, teatro e música, como convém a um filme de culto. Por outro lado, expõe as fragilidades de um cinema feito somente a partir de sensações vagas, paixão declarada e improvisação.

Uma camada contemporânea transforma tudo em filme-processo. A diretora Cléo Borges (Patricia Niedermeier) ensaia seu primeiro filme com os atores Michel e Patricia (como os protagonistas de “Acossado”), vividos respectivamente por Erom Cordeiro e Juliana Terra. Eles formam também um triângulo amoroso flanando por pontos aprazíveis e points culturais do Rio, filmados em rutilante preto e branco por Vinicius Brum. Procuram emoções e climas para além do roteiro e dos DVDs levados da Cavídeo como inspiração. Buscam legitimar suas ideias na brodagem, o que de certa forma aproxima o cinema novíssimo de hoje ao Cinema Novo dos 60. Mas o que salta aos olhos, no final das contas, são as diferenças. UM FILME FRANCÊS se contenta com a celebração ingênua de uma cinefilia.

O filme está sendo lançado em programa duplo com o curta CINE PAISSANDU: HISTÓRIAS DE UMA GERAÇÃO, de Christian Jaffas, que mostra justamente o seu oposto: como a Geração Paissandu, para além do diletantismo, ligou-se à cultura de resistência política durante a ditadura.


Existem argumentos de cinema que ganhariam muito se não fossem realizados. O da comédia A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE, por exemplo. A ideia é divertida: duas repórteres de TV disputam um lugar na bancada do telejornal local de uma pequena cidade. Uma delas passa a perna na outra, que, em troca, passa a forjar uma série de falsos crimes para ganhar notoriedade. Surge assim um serial killer que encena provérbios com suas vítimas. O problema da história é que ela precisa ser desenvolvida num roteiro de longa-metragem. Aí vêm as obviedades, os clichês caricatos, as piadas com gordos e negros, as tiradas sem nenhuma graça. Pior: o roteiro precisa ser filmado. Então vem uma direção claudicante, uma decupagem desastrosa e o desperdício de boas sacadas em cenas desprovidas de inspiração. Criou-se um critério de avaliação para as comédias populares brasileiras segundo o qual, se não há apelações de baixo nível (como aqui), isso já é sinal de qualidade. Só que não. Baixaria não é só o mau-gosto e a escatologia de outros filmes. É também a falta de capricho, de sutileza e de talento na criação do que poderia ser uma comédia razoável.