Cinema de todos os gêneros

Frente à onda atual de filmes que elogiam a jovialidade e as virtudes da “melhor idade”, EM TRÊS ATOS é um movimento solitário na direção inversa. No filme-performance de Lúcia Murat, a velhice não é encarada com eufemismos saltitantes, mas sim como uma agressão ao corpo e um avizinhamento da morte. Dois pares de mulheres representam em cena a segunda e a terceira idades, talvez da mesma personagem: as bailarinas Maria Alice Poppe e Angel Vianna, e as atrizes Andréa Beltrão e Natália Timberg. As duas primeiras usam a linguagem da dança para não só contrapor os movimentos de cada fase da vida, mas também os ecos de memória que o corpo armazena através dos anos. Já as duas atrizes, numa preciosa combinação do coloquial com o declamado, falam textos de Simone de Beauvoir retirados do ensaio “A Velhice” e do relato autobiográfico “Uma Morte Suave”, sobre a agonia e morte de sua mãe.

Trata-se de romper o que Simone chamou de “a conspiração de silêncio que existe em torno da velhice”. Se as bailarinas encarnam a continuidade entre juventude e decrepitude, espelhada uma na outra através da coreografia, as atrizes encaram de frente a gravidade de um período em que as paixões ainda existem mas não conseguem ser vividas, e a morte não serve de consolo para quem dela se aproxima. Se isso soa um tanto fúnebre, espere até ver as imagens de hospitais, cemitério e flores. EM TRÊS ATOS se dá à difícil tarefa de extrair poesia do mais profundamente melancólico. Apropriadamente, a encenação abre espaço para muitos tempos mortos. Há também muitas deambulações noturnas que eu não consegui integrar ao fluxo de sentidos do filme. De qualquer maneira, Lúcia Murat tem o mérito inegável de seguir buscando caminhos criativos para dar forma a suas palpitações autorais e o vem fazendo com um requinte cada vez maior.


Escassez. Esta é a ideia-chave de A ILHA DO MILHARAL. Escassez de espaço: tudo se passa numa minúscula ilhota temporária formada pelo rio Inguri, na Geórgia. Escassez de subsistência: um velho lavrador instala-se na ilha com a neta adolescente para construir um casebre de madeira e plantar um pequeno milharal. Escassez de comunicação: o primeiro dos escassos diálogos travados no filme chega aos 20 minutos e o segundo, aos 56. Escassez de informação: nada sabemos sobre a procedência dos personagens, nem nada é dito sobre o conflito que opõe dois grupos de soldados em ronda fluvial pela região. Trata-se da guerra civil entre a Geórgia e a região separatista da Abecásia, que se estende desde 1992.

O que não falta no filme de George Ovashvili é uma bela narrativa visual, calcada nos olhares dos personagens entre si e da câmera em incessantes movimentos ao redor deles. A natureza é que tem o papel principal, seja na luz, seja na condução das ações, de uma forma que lembra os filmes de Walter Lima Jr., especialmente A Ostra e o Vento. Como natureza entenda-se também o despertar sexual da menina, em paralelo ao crescimento do milharal. Quando o conflito repercute na ilha através de um homem ferido, as tensões se aguçam. Mas é ainda a natureza que vai determinar o destino de avô e neta, como parte de um ciclo insano de criação e destruição. Um filme ao mesmo tempo rude e parcimonioso, que tem seu grande trunfo na condensação de recursos e no delicado poder de sugestão.


Aventura Clássica com A e C maiúsculos, NO CORAÇÃO DO MAR conta uma das histórias que inspiraram Herman Melville na escrita de “Moby Dick”. Não consta que Melville tenha jamais se encontrado com o ex-marinheiro Thomas Nickerson, sobrevivente do naufrágio do baleeiro Essex, obstinadamente atacado por uma gigantesca baleia branca em 1820. O escritor usou na verdade o livro escrito pelo primeiro imediato Owen Chase, herói do filme de Ron Howard. “Moby Dick” seria o relato fictício de uma vingança posterior contra a baleia. Mas as brumas da criação literária explicam essas liberdades. O que importa, então, é que o filme mobiliza com garbo os ingredientes do gênero: a coragem dos caçadores, a dramatização da natureza como força vingativa, a vitória do herói autêntico sobre o meio corrupto e a exposição da ganância industrial na era pré-petróleo e pré-elétrica, quando o óleo de baleia era o melhor combustível de iluminação. Ron Howard faz o serviço bem feito de sempre, explorando dramaticamente o 3D nas façanhas marítimas e combinando o visual de época com a vitalidade da mise-en-scène digital.


A comédia romântica argentina SEM FILHOS é um divertimento popular, convencional e bastante calcado nos paradigmas do gênero. Mas ao assisti-la, entre gargalhadas e delicadas percepções de comportamento, fui tomado de vergonha. Vergonha dos roteiros e do modelo de encenação das comédias  brasileiras em voga. As gags de SEM FILHOS são pautadas por condutas bastante plausíveis dos personagens, os diálogos são simples e ao mesmo tempo inspirados, as ideias ecoam dentro do filme demonstrando que alguém pensava ao escrever. As pessoas não gritam o tempo todo, não chafurdam na baixaria, não se emperequetam como se vivessem numa novela da Grobo, não tentam arrancar o riso do espectador como quem derruba a parede para tirar um prego. Ou seja, não gostei de ver SEM FILHOS. Saí meio deprimido. Como aquele cara que detesta “Cantando na Chuva” porque sua realidade é tão menos feliz.


A VISITA vem sendo razoavelmente festejado como o retorno de M. Night Shyamalan, se não ao nível de “O Sexto Sentido”, pelo menos a um certo grau de qualidade. Talvez seja principalmente pela viradinha esperta que ele providencia na meia hora final e pelo recurso de narrar o filme inteiro (eu disse inteiro) através das filmagens dos garotos durante uma semana passada na casa dos avós. Não deixa de ser um tour de force de imaginação cinematográfica, mesmo sendo preciso admitir que os meninos têm uma prodigiosa noção de decupagem e não largam a câmera nem para se defender de ataques mortais. Tudo bem, vai por conta da licença dramatúrgica, como muitas outras embutidas na história da família. Mas as figuras de linguagem do gênero terror – sustos com portas se abrindo ou gente aparecendo diante da câmera subitamente, porão escuro guardando revelações, ruídos assustadores durante a noite – tudo isso nas mãos de Shyamalan vira vulgaridade e truque barato, quando não humor fracassado. A VISITA parece mirar o público adolescente que se identifique com as crianças em sua mórbida curiosidade pelo senil.


Em LABIRINTO DE MENTIRAS, um jovem promotor idealista assume a missão de botar os chefões de Auschwitz na cadeia em 1958. É a história do Julgamento de Frankfurt, o primeiro em que a própria Alemanha condenou seus carrascos. O personagem Johann Radmann representa na tela um grupo de promotores que levaram a cabo a investigação, daí a estrutura bastante codificada do herói praticamente solitário a enfrentar a conspiração de silêncio e encobrimento dos crimes nazistas. Johann é aquele tipo de herói que descobre, ao mesmo tempo, a verdade sobre sua própria família e a extensão das culpas por toda a sociedade. Johann, na verdade, é alguém que sabia muito pouco. Sua tomada de consciência parece coincidir com a indesejada conscientização do país, o que leva à eterna discussão de quanto os alemães sabiam a respeito do genocídio dos judeus. O filme, assinado por Giulio Ricciarelli, italiano radicado na Alemanha, parece ter sido dirigido conforme um manual da correção narrativa, sem dispensar nenhum dos lugares-comuns do thriller histórico. Inclusive o de situar os justos no ambiente dos artistas, jornalistas e jovens. Este é o representante alemão na corrida pelo Oscar. De tão careta e déja vu, não creio que tenha chances.

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