Duas cidades e uma casa no campo

Pílulas críticas sobre SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO – A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE, SÃO PAULO EM HI-FI e RALÉ

Parte de um projeto da produtora e diretora Juliana de Carvalho que compreende também um livro e uma exposição homônimos, o documentário SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO – A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE reconta a história do Rio com base em vasto material iconográfico; depoimentos de historiadores, arquitetos/urbanistas e pesquisadores; textos de viajantes e cronistas de várias épocas; e imagens exuberantes da cidade atual. As abundantes tomadas aéreas fornecem um deleite constante, enquanto os textos e falas, numa estrutura dissimulada de verbetes orais, pontuam passagens definidoras ou pelo menos curiosas da biografia da antiga “Paris nos trópicos”.

Embora narre, no fundo, uma história de remoções, erradicação de imagens da pobreza e embelezamentos, sempre polêmicos, o filme evita entrar diretamente no mérito das novas metamorfoses da administração Paes. Conclui com um chamado à reflexão sobre as funções de uma cidade. A mim, a inequívoca e reiterada beleza do Rio de hoje pareceu prevalecer como mensagem subliminar de uma vitória permanente contra o pessimismo e as resistências à mudança.



Está em cartaz no Cinesesc (SP) o documentário SÃO PAULO EM HI-FI, de Lufe Steffen, um dossiê sobre a cena LGBT paulista dos anos 1970 aos 90. A história é contada por artistas transformistas, frequentadores de points gays e lésbicos, jornalistas e a empresária Elisa Mascaro, uma espécie de mãezona da turma. Em pauta, os locais de pegação, as boates e bares com seus dark rooms, a crônica da época nas páginas do jornal Lampião; e também os medos, as agressões homofóbicas, a repressão policial e a grande desilusão que foi a chegada da Aids. A “performance” dos entrevistados em suas falas garante o divertimento, especialmente se atentamos para a decoração armada como fundo das entrevistas.

Esse álbum de memórias enfrenta, porém, duas grandes limitações. Uma formal, pois as únicas pausas nos depoimentos são feitas com fotos e cenas repetitivas de VHS de shows nas boates Medieval e Corintho, duas mecas das bichas, “sapas” e tavestis do período (uso aqui os termos de época) – cenas que mostram o fascínio dos performers pelas coreografias de Bob Fosse e da Broadway. A outra limitação é temática mesmo, uma vez que a abordagem não vai além do hedonismo e da nostalgia de um certo glamour. Um eventual sentido político e de comportamento social está fora do horizonte do filme e, aparentemente, da maioria de seus personagens.



Ralé-13-TrezeNuma cena de RALÉ, o filme de Helena Ignez, sua filha Djin Sganzerla aparece com o livro de Gorki nas mãos explicando que a peça se compõe de cenas soltas, sem perfazer uma narrativa única. Ao menos nisso, o filme é relativamente fiel, mas não se trata de adaptação. Gorki falava das angústias e irrealizações de gente pobre, que vivia em cortiços subterrâneos (bas-fond) da Rússia czarista. Helena fala de artistas como ela, gente de uma elite cultural que caga (desculpem o termo, mas é literal mesmo) para as convenções de comportamento, gênero e linguagem.

O termo “libertário” tem sido o mais utilizado para qualificar o filme. O grupo de amigos que se reúne numa bela casa de campo do interior de São Paulo para fazer “teatro rural” e rodar um filme de sabor marginal chamado “A Exibicionista” vive um meio-termo entre os personagens que interpretam e a persona mesmo de cada ator. Ney Matogrosso e José Celso Martinez Correa, com seus respectivos namorados, além de Mario Bortolotto e a própria Helena no papel de uma xamã amazônica, são alusões explícitas a toda uma tradição de irreverência artística e comportamental na arte brasileira. As recentes acusações de vagabundagem feitas aos artistas pelos apoiadores do golpe de estado em vigor conferem uma atualidade a mais: RALÉ afirma em negrito o valor poético das “vadias”, dos LGBT, de gente despudorada e embriagada de liberdade.

No entanto, longe de alcançar a unidade temática da peça de Gorki, o filme se espalha em mil referências, como um vidro estilhaçado. Muito do potencial de energia da encenação se perde no excesso de poses, trejeitos, abraços e gestos largos de exclamação. Há algumas cenas particularmente bonitas, mas abafadas por um histrionismo um tanto gratuito, que se contenta em ser uma celebração exibicionista entre amigos, em lugar de alguma coisa destinada a tocar ou abalar o espectador.

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