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Foto: Sophie Calle

Lou Reed, o marido de Laurie Anderson, morreu em 2013, e sua cachorrinha Lolabelle, em 2011. O primeiro documentário de Laurie quase 30 anos depois de “Home of the Brave” é apenas dedicado ao marido. A estrela é a cadelinha.

CORAÇÃO DE CACHORRO tem vários pontos em comum com “Adeus à Linguagem” de Godard, a começar pela antropomorfização do cão e muitas cenas filmadas do ponto de vista do animal. Em comum ainda o formato autoral ensaístico. Mas as semelhanças acabam por aí.

Embora também especule sobre amor, morte e política (a sociedade de vigilância pós-11 de setembro), sempre em narração sussurrada na primeira pessoa, Laurie não quer emaranhar o espectador numa rede de referências cifradas e trocadilhos diletantes. Seus devaneios poéticos, recordações pessoais e histórias sobre terceiros nos conectam diretamente com uma personalidade inquieta, sensível às pequenas e grandes coisas, capaz de fazer associações originais de ideias e, principalmente, ligar música e imagem numa unidade indivisível. Laurie assina os desenhos e animações, assim como as canções da trilha sonora.

Tanto o imaginário que mobiliza quanto a forma adotada no filme transpiram o budismo tibetano que ela e Lou Reed abraçaram desde há muitos anos, com destaque para o conceito de “bardo” (intervalo entre a morte e o renascimento). O cinema, para Laurie, é uma maneira de restituir a vida. Lolabelle, a cadelinha que aprendeu a pintar, esculpir e tocar piano, brilha novamente para o nosso deleite tardio.