Juízes e julgados

Pílulas sobre os filmes VIDAS PARTIDAS, A CORTE e A CONEXÃO FRANCESA

VIDAS PARTIDAS oscila entre o thriller do gênero “dormindo com o inimigo”, o dramalhão mexicano e o drama de tribunal. Um letreiro no final esclarece que o filme não se baseou em nenhum caso específico, mas nos de várias mulheres vítimas de violência doméstica. A história se passa na década de 1980 e em 2006, ano da aprovação da Lei Maria da Penha. O acúmulo de casos em um só transforma o marido (Domingos Montagner) numa espécie de monstro, capaz de todo tipo de cafajestice e violência – física, psicológica, sexual. Não é uma escolha muito produtiva.

Por outro lado, existe a intenção de explorar os sentimentos controversos do casal. Nele, a obsessão amorosa se confunde com a tirania e o desejo de eliminação do objeto amado. Nela (Naura Schneider, também produtora do filme), instala-se a ambiguidade entre rejeição e aceitação desse amor “extremo”. Em dado momento, ela é vista lendo “O Discurso da Servidão Voluntária”, de Étienne de La Boétie. Os aspectos psicológicos seriam melhor desenvolvidos se o roteiro não insistisse tanto no vai-vem entre os diversos tempos da trama, o que prejudica a clareza e não acrescenta em dramaticidade.

O diretor Marcos Schechtman, veterano de telenovelas estreando no cinema, tem domínio da linguagem visual, dos ritmos, da construção de atmosferas e da condução do elenco. Seu trabalho só é prejudicado pela fragmentação excessiva do roteiro e por diálogos que nunca soam “falados”, mas sim “escritos” – além de ninguém ter sotaque nordestino numa história passada em Recife. As cenas do tribunal também parecem mais saídas de uma minissérie americana do que da realidade brasileira. Descontados esses tantos senões, VIDAS PARTIDAS tem qualidades para segurar a atenção do espectador, mesmo que não avance tanto quanto pretendia na discussão do seu tema.



Juiz frio e antissocial (o minucioso Fabrice Lucchini) encontra jurada elegante e afetuosa (Sidse Babett Knudsen). O Amor vai então adoçar a balança da Justiça. Assim é A CORTE, drama de tribunal que corre em paralelo a um rascunho de romance. O juiz e a jurada tiveram outro encontro no passado. No lado oposto da corte está também um casal, o marido acusado de ter matado a filha de sete meses a pontapés. O filme de Christian Vincent conduz esses dois plots de maneira delicada, alternando o debate judiciário com toques de humor. É significativo que, na cena final, a leitura de um veredicto criminal seja ouvida como uma declaração de amor.

Não há nada ali que a gente não tenha visto antes. Se A CORTE supera razoavelmente sua condição de déja vu é pelo caráter envolvente das conversas e interrogatórios, na boa tradição do cinema francês. Os ótimos e caudalosos diálogos são ditos por atores aptos a deles extrair as mais ricas inflexões.



É preciso cuidado para não se atrapalhar com os gentílicos. A CONEXÃO FRANCESA (“La French”) é a versão francesa do americano “Operação França”. Mas o modelo cheira mais a Hollywood que a Marselha, onde a história se passa em meados dos anos 1970. Os ingredientes do gênero mafia movie comparecem em peso, com execuções bombásticas em lugares públicos, gente sussurrando com rispidez e falando italiano macarrônico, muitos tapas na cara e cenas de ação paralela. O paralelo principal, porém, é criado entre o obsessivo e destemido juiz Pierre Michel (Jean Dujardin) e o chefão do tráfico Gaëtan Zampa (Gilles Lellouche), que chegam perto de duelar como num faroeste. Eles são parecidos fisicamente, bons pais de família e não dispensam a ilegalidade quando é para atingir seus objetivos. A diferença fatal, vocês verão, é que um deles não anda de moto.

Seguir a trama labiríntica de personagens, vendettas e emboscadas requer uma boa prática, ou pode simplesmente ser deixada de lado para absorver o que realmente importa: a mimetização do filme americano pelo cinemão comercial francês. Mesmo sabendo-se de antemão que Cédric Jimenez jamais chegará aos joelhos de William Friedkin.

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