Casados e engraçados

Dois filmes em cartaz mobilizam figuras clownescas e são protagonizados por casais na vida real. São eles o brasileiro OS POBRES DIABOS e o belga PERDIDOS EM PARIS.

O palhaço Gasolina (Chico Diaz) e la cantante Creuza (Silvia Buarque) só conseguem se amar às escondidas, nos intervalos de suas apresentações no Gran Circo Teatro Americano. Ela é casada com o “diabo” Zeferino (Gero Camilo) e não aguenta mais comer tapioca com leite de cabra na parca dieta da trupe pelo interior do Ceará. A fome, que já matou o leão e põe em perigo o destino dos gatos da área, é um dos principais motores da ação de OS POBRES DIABOS, mais uma investida de Rosemberg Cariry no universo do espetáculo popular nordestino.

A lona do circo sofre diversas ameaças – da fúria do vento aracati, do fogo e do público magro que não chega para fechar as contas. Assim mesmo, eles prosseguem apresentando uma versão de “Lampião no Inferno” aplicada à sátira política. Quando não estão no picadeiro, envolvem-se em pequenas disputas que não chegam a formar uma trama consistente.

O que garante um divertimento razoável é a verve do elenco, especialmente do triângulo amoroso principal. Chico e Silvia capricham no desempenho vocal e corporal, fazendo de suas cenas as melhores do filme. A fotografia de Petrus Cariry é outro atrativo vistoso, que sabe valorizar a horizontalidade da região de Aracati. Os tableaux panorâmicos, belíssimos nas externas, carecem contudo de uma decupagem mais dinâmica quando são usados no interior do picadeiro. Ao privilegiar uma frontalidade no mais das vezes estática, o filme perde ritmo e não obtém muito em troca. Ainda assim, a saga dos artistas mambembes nordestinos ganha mais uma glosa cheia de colorido.



PERDIDOS EM PARIS (Paris Pieds Nus) se afilia a uma tradição de comédia visual que remonta a Charles Chaplin, Pierre Étaix e Jacques Tati. Seus diretores-produtores-protagonistas são Fiona Gordon e Dominique Abel, casados e parceiros de cena há mais de 30 anos. Que eu saiba, o único filme deles lançado no Brasil havia sido Rumba, de 2008.

Dessa vez, eles encarnam uma bibliotecária muito, muito canadense e um clochard fissurado na comida de um restaurante chique. Seus caminhos vão se cruzar depois que Fiona chega em Paris para cuidar de uma tia e se vê envolvida numa série de trapalhadas. A tia é o terceiro vértice do circo de equívocos armado pelas bordas do Sena e em torno da Torre Eiffel: a clássica velhinha maluquete, último papel de Emmanuelle Riva no cinema.

Com poucas palavras e muita gestualidade cômica, Fiona e Dom vivem situações e gags próximas do absurdo, as melhores delas relacionadas com a morte. Coloco aqui um porém. Afora dois ou três momentos realmente hilariantes, achei a graça deles um tanto pálida, impressão semelhante à que tive com Rumba.

Emannuelle Riva, em papel oposto a sua tradicional figura dramática, não foi a única veterana escalada pela dupla. O prolífico comediante Pierre Richard (Louro Alto do Sapato Preto) faz um dueto simpático com Emmanuelle num banco de jardim. Paris jamais imaginaria ver aqueles dois reunidos numa mesma cena.

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