O Mar e a Terra

Sobre o thriller MAR INQUIETO e o drama ecológico A TERRA VERMELHA

Uma cidadezinha litorânea cheia de boatos sobrenaturais, um casal abalado pela violência doméstica, um bando de assaltantes de banco, um monte de dinheiro escondido em algum lugar… A reunião um tanto desajeitada desses ingredientes e mais alguns faz a estreia do diretor, roteirista e escritor gaúcho Fernando Mantelli no longa-metragem. MAR INQUIETO é um thriller psicológico com flertes no terror e no humor negro – o que, aliás, é o melhor do filme.

A beldade Rita Guedes, uma sósia mais protuberante de Michelle Pfeiffer, dá conta do recado e é muito bem tratada pela câmera de Juliano Lopes no papel de Anita, mulher de passado junkie e desde menina impressionada com o que se dizia sobre a praia onde hoje está sua casa. Tão encrespado quanto o mar é o temperamento do marido Vitorino (Daniel Bastreghi) ou do comparsa dele, Hugo (Miguel Lunardi).

O filme se pauta, em grande parte, por estereótipos de gênero filmados com certa competência, incluindo-se aí os clássicos flashbacks que remontam o passado ou esclarecem alguns fatos. Mantelli escapa dessas armadilhas principalmente na relação cúmplice de Anita com a amiga Paula (Áurea Baptista), quando o humor negro se avizinha do clima de “Fargo”, dos Irmãos Coen.

Ao que parece, se o filme não investisse tanto em expectativas macabras que se frustram repetidamente, a inquietação seria mais legítima e o tratamento, menos artificial.



Até um dado momento, A TERRA VERMELHA é um filme regido apenas pelo politicamente correto, com toda a ingenuidade que isso acarreta. O belga Pierre administra uma área de floresta na província argentina de Misiones. Embora seja mostrado como um sujeito bacana, técnico de uma equipe de rugby local, ele encarna os interesses da multinacional papeleira que extrai madeira na região. Tem seu revólver sempre pronto a decidir paradas e expulsa posseiros com voz de comando.

Que sua relação romântica com Ana, professora e líder do movimento de resistência popular, vai mexer com sua consciência fica claro desde o início, conforme a cartilha da correção política. Mas nada justifica as alterações que se vão produzir (a partir daqui o texto contém spoilers). Pierre precisa “sentir na pele” os efeitos dos agrotóxicos para enfim compreender as queixas da população. O episódio em que ele se defende de uma agressão a facão e esmurra um posseiro, ao invés de servir para culpabilizá-lo perante o espectador, ao contrário, passa uma informação pouco ética sobre a luta popular e incrimina quem supostamente seria a vítima.

A impressão de picaretagem se agrava quando Pierre passa de armas e bagagem para o outro lado, sem o menor cuidado de segurança, e torna-se nada menos que um dos líderes da resistência guerrilheira. O que até então era somente singeleza ideológica se converte em pura e simples demagogia. Assim como a direção de arte exagera no volume de sangue vertido nos confrontos, o roteiro extrapola nas boas intenções e cai no elogio do martírio e da má consciência.

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