Muito barulho por quase nada

DUNKIRK e EM RITMO DE FUGA, dois exemplos de hipertrofia
e perda de substância do cinema-espetáculo
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Será que precisamos mesmo falar sobre DUNKIRK?

Se é pra falar, começo dizendo que ali pelos 30 minutos de massacre auditivo e trepidação visual, comecei a torcer para que um navio, um helicóptero ou mesmo um 99 Táxi me retirasse com vida do Espaço Itaú. Há muito tempo não via um filme tão ruidosamente inútil. Embora a intenção fosse colocar o espectador no centro da ação, senti-me o tempo todo alienado de tudo o que acontecia, seja histórica, seja dramaticamente.

DUNKIRK é um pastiche de Titanic sem romance + O Resgate do Soldado Ryan sem Spielberg + Top Gun sem Tom Cruise. Cenas semelhantes se repetem ad nauseam ao som da trilha obsedante de Hans Zimmer e do alarido ininterrupto de tiros e bombas. Christopher Nolan abusa das considerações técnicas sobre a missão e dá novas provas de incapacidade para consolidar personagens em meio aos seus espetáculos estapafúrdios. Aqui, um barquinho civil devotado ao resgate de sobreviventes no mar pretende fazer o contraponto de “célula “humana” ao drama massivo dos milhares de soldados à espera do resgate, mas não passa de mais um foco de aborrecimento e obviedades.

Muito do que está na tela foi concebido para impressionar as plateias do IMAX. Como não vi nesse suporte, fiquei apenas com um filme de guerra frio e redundante, arrematado por um final solene em louvor da sobrevivência. A crítica padrão está caindo de quatro, os Oscars certamente virão, mas eu tenho certeza de que ninguém fora da indústria estava precisando de DUNKIRK.



Adrenalina e testosterona não faltam a EM RITMO DE FUGA (Baby Driver). Música tampouco, pois esse é um filme-playlist: uma faixa para cada sequência, uma batida para cada arrancada de Baby (Ansel Egort) ao volante ou nas próprias pernas. É quase um musical, principalmente no início, quando Baby parece vibrar com seu trampo de motorista de fuga para uma quadrilha de assaltantes de banco. Com a música certa nos fones de ouvido, não tem pra ninguém sobre quatro rodas. Uma sequência até simpática o mostra interagindo com as ruas de Atlanta a pé, entre a corrida e a dança.

Mas o filme precisa continuar, e um arremedo de trama precisa ser desenvolvido. Então Baby vira um rapaz com um problema. Ele terminou de pagar sua dívida (qual, roteirista?) ao chefão (Kevin Spacey), mas não consegue se livrar do domínio dele para poder pegar a estrada com a namoradinha nova. Baby fica sério e não curte mais seu ipod como antes. Aí o diretor Edgar Wright tem que se virar sozinho para juntar música, velocidade e tiros. A montagem acelerada toma o assento do motorista e dá a impressão de que todas as perseguições de carro da história do cinema americano desembocaram nesse filme.

Há alguma coisa de tarantinesco na intenção e, na memória, um eco distante do Breathless de Jim McBride. Sem termos de comparação, é claro. Baby Driver é pura diversão adolescente, oco como uma bola de chiclete e muito mal arranjado no seu ato final. O álbum da trilha sonora é bem melhor, até porque as músicas tocam inteiras.

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