“Gritos e Sussurros” por Ely Azeredo

Na oportunidade em que o Instituto Moreira Salles (Rio) exibe a cópia restaurada da obra-prima de Ingmar Bergman, resgato aqui um texto clássico de Ely Azeredo sobre o filme, publicado na época do lançamento (1972) e posteriormente no seu livro Infinito Cinema (Unilivros, 1988). O filme será exibido no IMS na próxima terça-feira 1/8, às 14h, e na quarta 2/8, às 14h e 20h.

Espionando a alma: “Gritos e Sussurros”

por Ely Azeredo

A concentração (em poucos personagens, cenários, tempo) sempre foi uma tendência forte na filmografia de Ingmar Bergman. Com três obras realizadas no período 1960/62 sob a definição de filmes de câmara (referência ao teatro de câmara de Strindberg, um dos autores que mais o influenciaram) – Através de um Espelho, Luz de Inverno, O Silêncio – o cineasta levou aquela concentração a um renovado rigor, que teria outro clímax, três anos depois, com Persona. Gritos e Sussurros, produzido em 1971/72 e acolhido universalmente como uma soma das principais virtudes expressivas e inquietações existenciais de Bergman, leva a faina de depuração e concentração a um ponto poucas vezes alcançado em sua obra e mesmo em todo o cinema.

Em O Silêncio – até aquele momento seu retrato mais terrível do isolamento da criatura humana – duas irmãs se dilaceram psicologicamente quando, pelo agravamento da doença de uma delas, interrompem uma viagem e permanecem demoradamente num hotel de cidade estrangeira. A língua estranha do país torna impossível a mais simples comunicação com os outros. Tanques de guerra se arrastam pelas ruas, configurando de maneira expressionista o aprisionamento da situação. Em Gritos e Sussurros também há uma situação extrema, a agonia de uma das personagens, provocando a tensão e o clima propícios ao desnudamento psicológico e ao mútuo dilaceramento dos demais. O insólito e o terror fluem da própria naturalidade com que os outros personagens deixam vir à tona seus demônios interiores, no cenário plácido e familiar de uma mansão aristocrática fin de siècle, enquanto representam, com elegância e circunspecção, os postulados da caridade cristã, a tradição da fidelidade conjugal (nos flashbacks), a postura dos manuais de boas maneiras. Nem o efêmero exílio, nem o fantasma do conflito bélico, nem uma língua impronunciável – ao contrário de O Silêncio. A língua comum e os cenários que as protagonistas conhecem desde a infância acentuam o irremediável de sua incomunicação.

Mais que qualquer outro Bergman, Gritos e Sussurros atesta a terrível impotência das palavras na abordagem crítica de um filme. Que importa, por exemplo, racionalizar a significação do vermelho – a cor predominante nos interiores (o que equivale a dizer em todo o filme, porque os exteriores são raros)? Vermelhos são as paredes, os tapetes, as cortinas, os estofamentos, etc. Bergman também se mostra incapaz de racionalizar essa opção: a explicação “mais obtusa, mas também a mais defensável, é que deve tratar-se de algo interior, porque desde minha infância eu imaginei a alma como uma membrana úmida em vários tons de vermelho”. (Vermelhos também são os fade-out e fade-in, um recurso tão belo e pouco explicável quanto os fades em branco, ofuscantes, da sequência da humilhação do palhaço em Noites de Circo). A verdade é que os décors, apesar do inusitado uso do vermelho, correspondem, como tudo em Gritos e Sussurros, às proposições anteriormente anunciadas pelo cineasta numa carta dirigida ao elenco antes da filmagem: “…é essencial que nosso décor não se torne óbvio. Ele deve ser maleável, formar um quadro, ser discreto e presente, sugestivo sem cativar a atenção”.

O que, no mesmo documento, Bergman diz de todos os objetos de cena (“como nos sonhos: alguma coisa existe porque a desejamos ou porque a necessitamos no momento…”) pode ser aplicado igualmente a outros aspectos da direção. Por exemplo quando Agnes (Harriet Andersson), em flashback, lembra sua dificuldade em compreender a mãe, em ganhar a sua intimidade – no que invejava uma das irmãs, Maria – Liv Ullmann (Maria) também interpreta o papel (sem palavras) daquela. Quando Maria vê o marido tentando o suicídio, a cena pode servir a duas interpretações, ambas válidas para a proposição do filme: tentativa real ou projeção de um desejo da mulher. Como em Persona, fantasia e realidade são muitas vezes duas faces da mesma sequência, do mesmo plano. Assim, na estarrecedoramente expressiva sequência em que Karin (Ingrid Thulin) e Maria reagem ao chamado(?) da irmã morta, pouco importa invocarmos explicações (como catalepsia, fenômeno parapsicológico ou sobrenatural), já que a morte de Agnes, ainda jovem, vítima de doença incurável – sobre a qual desde o início do filme não paira a menor dúvida – aterroriza concretamente as irmãs desde a sua primeira aparição e continuará até o fim como o dado central do filme. Aliás, mais que a morte de Agnes, mais que a Morte como mistério, é o vazio mortal dos demais personagens (com exceção de Anna, a criada), ou, melhor dizendo, a morte-em-vida dos demais personagens que constitui o tema principal.

A cena em que, em primeiro plano, o médico descreve com sarcasmo – analisando como num exame clínico – a invasão do rosto de Maria pelas marcas do cinismo, da autocomplacência, da lassidão, oferece o dado-chave para compreendermos aquela deterioração. A automutilação do sexo por Karin e o subsequente gesto ritual que ela faz com o sangue configuram não somente sua repugnância diante da vida sexual como da própria existência. Não surpreende, portanto, que Bergman nos perturbe a respiração com uma sequência superficialmente aparentada com clássicos do terror (A Queda da Casa de Usher, por exemplo): a vida da torturada Agnes, trazendo em seu sorriso sem maldade a semente da morte, já era algo como uma condição de zombie para Karin e Maria; o aparente retorno da falecida enfatiza o horror camuflado que é a vida das irmãs.

Nesse filme – que exigiria para aproximação menos vulnerável a dimensão de um ensaio – todas as grandes linhas do pensamento e da arte bergmaníanos estão presentes: as influências dos gênios escandinavos, de Strindberg a Dreyer; os reflexos da formação cristã (definitivamente encerrada com a trilogia em torno do silêncio de Deus); o existencialismo, especialmente pela vertente de Kierkegaard (já que a essência do melhor do cineasta é cultivar com paixão religiosa a dúvida de toda certeza).

Possivelmente somente em Dreyer (A Paixão de Joana D’Arc) tenha sido conseguida, no cinema, antes de Gritos e Sussurros, uma orquestração tão intensa de carnalidade e espiritualidade, uma prospecção tão genial do esplendor do rosto humano. Com seu frequente colaborador, o fotógrafo Sven Nykvist, Bergman conseguiu decantar os elementos sórdidos e depressivos da história em imagens que podem ser vistas e revistas incessantemente, sem quebra de encantamento, como se ouve, por exemplo, o Bach que integra a trilha musical. Já se notou, também, que muitas imagens têm a força de uma pintura de Munch na abordagem da doença e da morte.

A interpretação, com Ingrid Thulin e Harriet Andersson em primeiro nível, Liv Ullmann e Kari Sylwan em segundo, Anders Ek (o pastor) numa sequência-chave (“Agnes, querida menina… rogue por nós que permanecemos nesta terra sombria e suja, sob um céu vazio e cruel…”), toca profundamente a sensibilidade do espectador. Cabe à impressionante Harriet o privilégio de dizer as últimas palavras (flashback em torno da página do seu diário, referindo-se a um momento de alívio da doença em companhia das irmãs): “…e eu pensava: isto é, em todo caso, a felicidade. Não posso desejar nada melhor. Agora, durante alguns minutos, posso gozar plenitude. E eu estou cheia de gratidão por minha vida que tanto me dá…”

Ely Azeredo

 

9 comentários sobre ““Gritos e Sussurros” por Ely Azeredo

  1. Boa tarde. Caro amigo, eu colecionava as críticas e resenhas do Seu Ely desde 1976!!!! Porém, depois de muitas mudanças ( e infelizmente perdas trágicas na família), tudo, literalmente, virou pó. Então,você , por favor, poderia postar um texto do MESTRE DA CRÍTICA , ao menos uma vez por semana. Ou, quem sabe, pedir a ele que postasse os artigos, resenhas, críticas, comentários, etc. publicados a partir dos anos 70 no Jornal do Brasil e O Globo ( PRA MIM, SERIA NATAL EM JULHO). Assim como fizeram com os textos da saudosa Dulce Damasceno de Brito. Aliás, se não me engano, você também escreveu para a saudosa Cinemin ( que também colecionei desde 1982) e outros órgãos da imprensa ( elementar meu caro Antônio!!! ). ALORS, que tal se colocasse aqui todos os textos de filmes ( claro se as empresas para as quais escreveu permitissem)? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.

    • Olá Antonio, agradeço seu feedback. Sempre insisto com o mestre Ely para criar um blog e publicar seus textos. Espero que seu pedido o anime também a fazer isso. Quanto à republicação em massa de textos antigos no blog, não creio ser possível pelo fato de que trabalho sozinho em sua manutenção. De qualquer forma, muitos textos do Ely sobre cinema brasileiro foram publicados há poucos anos no seu livro “Olhar crítico: 50 Anos de Cinema Brasileiro”, editado pelo Instituto Moreira Salles. Um abraço.

      • Muito obrigado pela atenção. Você é muito solícito. Um forte abraço.

      • PS: se souber que o Seu Ely começou a postar aqueles textos, por favor me avise, ok? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.

  2. CARMATTOS, bom dia.Leio o que você escreve, sempre. Gosto muito e tenho como referência.  Sou muito interessada em documentário, e lendo o livro de Francisco Einaldo sobre DOC, vi a referência ao seu livro IMPRESSÕES DE AMSTERDAM. É possível encontrá-lo hoje? Att,Heloisa. O que você indica para o estudo do documentário em geral? 

    • Olá Heloisa, agradeço a simpatia do seu comentário. “Impressões de Amsterdam” não é um livro, mas um artigo sobre documentários exibidos numa certa edição do Festival IDFA. Como indicação de leitura, sugiro “Introdução ao Documentário”, de Bill Nichols; “Espelho Partido”, de Silvio Da-Rin; “Mas afinal… O que é Documentário?”, de Fernão Pessoa Ramos; “Ensaios sobre o Real”, org. de Cezar Migliorin; e modestamente o meu recente “Cinema de Fato: Anotações sobre Documentário” (que pode ser encontrado nas livrarias Blooks ou Travessa de Ipanema).

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